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Violência urbana ou o estalar do verniz! Luís Barreira

Ainda vamos a tempo de “acordar”? Fernando Cruz Gomes

Também somos gente! Luís Barreira

Mais uma machadada nos órgãos de Informação da diáspora! António Cardoso

Os emigrantes... que paguem a crise! Fernando Cruz Gomes

Afinal quem poderá votar para o presidente da República ? António Cardoso

O País (Portugal) está perdido! Fernando Cruz Gomes

 

Mudem de Vida - Filiem-se no PS Orlando Castro

Incêndios, Mário Soares e as eleições autárquicas António Cardoso

Gralhas ou... grunhos?! Fernando Cruz Gomes

Portugal! 1580 ou 1640?... Luís Barreira

Combater a pobreza... sem combater a corrupção?! Fernando Cruz Gomes

Banca portuguesa em França pode desaparecer  António Cardoso

À volta cá vos espero”!... Luis Barreira

Assobiar para o lado... Fernando Cruz Gomes

G8! A oportunidade de fazer história. Luis Barreira

Uma geração de “choque”! Luis Barreira

E se pedíssemos perdão?! Fernando Cruz Gomes

Trapalhadas” (agora) com outro nome Fernando Cruz Gomes

Cunhal. Um homem a que ninguém fica indiferente! Luis Barreira

Saramago recebeu doutoramento “honoris causa” pela Universidade de Alberta Fernando Cruz Gomes

A “reforma” da política ou a reforma dos políticos? Luis Barreira

A União para a paz Luis Barreira

O “Zé” de Portugal ainda mexe... Fernando Cruz Gomes

A Europa e arredores

Vem aí o dragão chinês

Comunidade desunida jamais será ouvida António Cardoso

Os injustiçados de Abril Luis Barreira

A RTPi da nossa angústia

Quem tem um Jornal das Comunidades… tem tudo! Fernando Cruz Gomes

Assembleia Regional dos Açores continua “coxa”

Amor com amor se paga Fernando Cruz Gomes

Os “fundamentalistas” católicos! Luis Barreira

Será coragem ou demagogia? Fernando Cruz Gomes

Viva o optimismo! Luis Barreira

Terroristas e... terrorismos Fernando Cruz Gomes

Pacto de Estabilidade e (ou...) Crescimento. Fumo cinzento! Luis Barreira

 

A cooperação ibero-americana e a sociedade da informação Por Artur Castro Neves

Um emigrante no governo Por António Cardoso

Eleições americanas. Não podemos votar, mas podemos pensar! Por Luis Barreira

O contraditório... que ninguém quer Por Fernando Cruz Gomes

Não vale a pena maquilhar os problemas! Por Luis Barreira

Trovoada nos céus de “São” Pedro Por Fernando Cruz Gomes

Ainda a Casa Pia ! Por Luis Barreira

CCP sem tostão, nem notícias do governo Por António Cardoso

Ai Portugal, Portugal,.... Por Luis Barreira

O Conselho que (ainda) não temos Por Fernando Cruz Gomes

Portugal : turismo para “pé descalço” ? Por António Cardoso

Quem não honra o Passado… não merece ter Futuro  Por Fernando Cruz Gomes

Coitado do Zé Maria  Por Fernando Cruz Gomes

Portugueses, um povo “desenrascado” ! Por Luis Barreira

Chama, filha… antes que te chamem! Por Fernando Cruz Gomes

Durão Barroso está a “agradar…”  Devagar se vai ao longe Por Fernando Cruz Gomes

Entregues à sua sorte Por Fernando Cruz Gomes

Á volta cá vos espero!... Por Luis Barreira

Portugal é campeão da Europa ! Por António Cardoso

Portugal (do Canadá) ganhou a “maioridade” Por Fernando Cruz Gomes

A “Torre de Babel”!   Por Luis Barreira

Um “tornado” ou uma “avalanche”… O que fará o Governo com a derrota?  Por Fernando Cruz Gomes

A Comunicação Social ganhou com o Encontro de Macau Por Fernando Cruz Gomes

De vez em quando... Foi magia Por Victor Alves

A China entrou com pragmatismo inteligente  Por Fernando Cruz Gomes

A “Carta de Macau” Por Luis Barreira

Fátima em... Macau Por Fernando Cruz Gomes

Macau… marco de Progresso Por Fernando Cruz Gomes

A montanha pariu um rato Por António Cardoso

Um timoneiro seguro que o Canadá conheceu Por Fernando Cruz Gomes

Hoje não é sexta-feira, 13... mas é como se o fosse. Por Fernando Cruz Gomes

Voto branco ? Por António Cardoso

Mais apoios à Associação Internacional de Jornalistas Por Fernando Cruz Gomes

Medalhados de todo o mundo... uni-vos! Por Fernando Cruz Gomes

Medalhas em saldo... Quem quer mais ? Por António Cardoso

EURO 2004! Ensaio sobre a lucidez, ou sobre a cegueira..... Por Luis Barreira

Os “omniscientes” de meia tijela...Por Fernando Cruz Gomes

 

Ainda vamos a tempo de “acordar”?Por Fernando Cruz Gomes

Portugal vai andando. Ou melhor... vai fazendo que anda. De eleição em eleição, finge que é democrata. De orçamento em orçamento, até diz que é verdadeiro. E mesmo que a miséria ainda campeie e que os ricos sejam mais ricos e os pobres mais pobres, continua arreigada no cérebro de alguns a ideia de que “ainda vamos a tempo...”

E, no entanto, o Governo que vamos tendo em Portugal parece estar a desbaratar a onda de confiança – e de esperança, vamos lá – que os Portugueses nele depositaram. Vê-se isso, a olho nu, em cada dia que passa. Não só nas sondagens, não. Vê-se, afinal, no dia-a-dia dos... dias. Foi um Governo que, através do seu líder, disse que a grande diferença entre a sua gente e a dos seus opositores... era a verdade e a coragem. Uma e outra invocadas a todo o momento. Uma e outra deitadas para o saco do lixo das coisas que não prestam, que não existem.

Ainda agora, ao subir os impostos – os mesmos impostos que se tinha comprometido a não subir – o Governo deu nota da sua verdade. A sua coragem não foi outra que a de “castigar” reformados, desempregados e funcionários públicos – aqueles que menos se podem defender – para a luta contra o tal défice, um papão que serve (parece servir) para “explicar” todas as coisas... inexplicáveis.

Verdade e coragem, não é? – Ninguém entendeu ainda que todo este género de incongruências serôdias de um Governo que o não é, apenas dá a entender que a Pátria que todos temos – sobretudo lá naquilo a que se chama “coração” – já não tem identidade. Perdeu-a nas guerras do alecrim e da manjerona que se sucederam em catadupas logo após aquilo a que chamaram revolução. Deram-nos liberdade. Deram-nos democracia. Uma e outra deveriam ter trazido consigo melhor qualidade de vida, mais desafogo económico, melhor sistema de saúde, melhor protecção social. Só que... o espelho em que nos miramos a toda a hora dá-nos uma imagem diferente e contrária.

Há défice nas contas, com o Estado quase em agonia, com uma onda de desemprego galopante e um crescente endividamento dos que no futuro têm de viver.

Tudo isto, mesmo com liberdade e democracia, não pode agradar ao Povo. A confiança social está a atingir o seu ponto mais crítico. De tal modo que, se hoje fosse possível haver revoluções em Portugal, já as botas cardadas dos nossos militares se estavam a ouvir nas calçadas das nossas terras.

E, depois, ainda há quem acredite que o próximo Presidente da República possa resolver tudo isto. Que tenha poderes mágicos para inverter toda uma situação. Que abra, de novo, uma nesga de esperança na noite invernosa e negra em que nos vamos atolando! É mais do que miragem o que se pede a quem avançar para a cadeira do Poder.

Não sabemos se já se interrogaram sobre as razões que levam alguns dos nossos melhores cérebros a demandar o estrangeiro. Se se interrogaram sobre o que é que os esperaria em Portugal. Se seria curial pedir-lhes que “aguentassem o barco” e sacrificassem o melhor de si mesmos a um sonho quase fadado ao insucesso. Os Jornais dizem que os cérebros portugueses – na proporção de 1 para 5 – fugiram para o estrangeiro. Os Jornais não dizem, no entanto, porquê. E a História mais recente de um País como o nosso que tem História... é bem capaz de ter a resposta. Para já, sabe-se que um quinto dos portugueses com ensino superior não está em Portugal. E o resto... vai-se sabendo aos poucos. Nas filas de espera para um simples cuidado de saúde. Nas ruas onde desaguam as nossas raivinhas e queixas. Nos becos (alguns sem saída) das nossas crises.

Será que ainda vamos a tempo de acordar?

 

Violência urbana ou o estalar do verniz!Por Luis Barreira

A onda de violência que tem percorrido a região parisiense, se alargou a outras cidades francesas e ameaça estender-se a outros países europeus demonstra, entre muitas outras coisas, a fragilidade dos modelos sociais, das nossas actuais sociedades.

Se a multi-culturalidade crescente das sociedades europeias é apresentada, teoricamente, como uma vitória do humanismo igualitário e da liberdade e fraternidade dos cidadãos europeus, na prática, a coesão social, que deveria corresponder ao “cimento” que nos une, é uma simples capa de “gesso”, pronta a partir-se à menor pressão.

Preocupadas com os fenómenos macro-sociais, as classes políticas europeias dão cada vez menor importância ao desenvolvimento das situações marginais que a própria sociedade engendra, porque não os resolve, no seu estado latente e só quando elas atingem a dimensão de um quase “levantamento popular”, passando ao estado patente, é que reagem, gritando “aqui del rei..”, como se o que está a acontecer fosse um absurdo, perante o seu conceito de sociedade “arrumadinha”.

Estes milhares de jovens franceses, descendentes de famílias imigrantes, de há várias décadas, não se sentem excluídos  agora e os comportamentos sociais marginais, que hoje denunciam com tanta violência, são factores que sempre estiveram presentes em muitos dos seus comportamentos particulares. São consequência das várias sociedades paralelas, que se desenvolvem debaixo dos nossos olhos, alimentadas pelas culturas particulares, que lhes estão na origem e da incapacidade das sociedades de acolhimento, em dignificar a diversidade, preferindo a aculturação forçada, tantas vezes pela força da exclusão social.

Se considerarmos que essa mesma exclusão social conduz a estados marginais de vida e que esta marginalidade assume, sempre, formas violentas de expressão, escondidas do resto da sociedade ou desafiando abertamente a própria sociedade, o tratamento das consequências, não pode deixar de ter em conta as causas. Se isto não pode justificar tolerância, perante a violência exibida por esses jovens, não é igualmente tratando-os publicamente de “escumalha”, como fez o Ministro do Interior francês, que se pode atenuar as consequências e criar vontades, para ajudar a resolver as causas.

Nestas condições, estas sociedades paralelas, que existem de facto (independentemente da cegueira política de muitos dos nossos dirigentes europeus), acabarão por se fechar sobre elas, impermeáveis a qualquer aproximação e, mesmo que os ânimos se acalmem pela força, voltarão a manifestar-se (como já o fizeram no passado recente), reforçados pela actual experiência e, quem sabe, presa fácil de todo o tipo de ideólogos da violência.

A integração social das nossas sociedades europeias, para só falar daquelas onde nos situamos e que aspiram a um modelo único e ideal, não é um problema simples de resolver e nunca se pode considerar resolvido.

A diversidade e a dinâmica das sociedades, é um fenómeno complexo e exigente, a obrigar-nos a uma atenção e uma acção permanente. E, mesmo que as economias floresçam, o bem estar dos povos aumente e a satisfação material seja evidente, resta ainda um grande número de problemas espirituais a resolver. Trata-se da identidade de valores, de códigos morais de conduta, de respeito por determinadas normas essenciais à vivência em sociedade. E isto,... meus caros, é muito mais difícil de resolver, do que a “simples” satisfação das necessidades físicas e básicas, dos diversos extractos das populações, que compõem as nossas sociedades.

O que se passa em França, pode passar-se em Portugal, na Bélgica ou na Alemanha. Não é uma situação típica da sociedade francesa! Não se resolve “encaixotando” populações em torres de cimento ou em barracas da periferia das grandes metrópoles, tentando esconder a miséria ou circunscrevendo-a, para melhor a controlar.

Há que partir do princípio de que todos são cidadãos de um mesmo país, de uma mesma região ou de um continente, donde queremos erradicar a miséria humana, sob todas as suas formas.

A começar pelos bancos das escolas e a terminar na igualdade de tratamento e oportunidades, há um longo e urgente trabalho a fazer. De nada vale manter a ilusão de que “tudo está bem, quando acaba bem...”, mesmo que esta violência urbana acabe, irremediavelmente, pelo uso da força.

 

Também somos gente!Por Luis Barreira

Ao longo dos anos, os órgãos de comunicação social de expressão portuguesa, sediados junto da comunidades portuguesas no estrangeiro, têm assistido, com a calma e ponderação que lhes deve ser própria, a um desfile de ideias e projectos, dos responsáveis pela Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, que se sucedem ao ritmo dos vários governos que tomam posse em Lisboa.

De cada vez que um governo português toma posse e, nomeadamente, sempre que o titular da pasta pertence a um partido diferente do governo anterior, a política portuguesa, dirigida aos portugueses que vivem fora do País, parte do princípio de que, para trás, nada foi feito e “inventa” novas perspectivas, novas políticas, novos aspectos fundamentais da sua orientação que, por incapacidade de, no tempo e no espaço de uma legislatura, as colocar em prática, acabam sem resultados práticos e sem nenhum benefício para as comunidades que dizem pretender servir.

Na realidade, o resultado de tudo isto é que, as comunidades portuguesas fora do País, (cerca de 5 milhões de pessoas, entre portugueses e luso descendentes), estão praticamente na “estaca zero”, relativamente à aproximação com o país de origem.

Face a esta situação, (correspondente a uma cegueira política, que nada tem a ver com o supremo orgulho de “embirrarmos” em sentirmo-nos portugueses e de quem, na sua maior parte, só deseja o bem de Portugal, independentemente do partido no poder), o MNE português e a sua correspondente Secretaria de Estado, acaba de “inventar” um nova forma de comunicar com os portugueses que vivem no estrangeiro.

Trata-se de uma revista mensal, feita em Portugal e para os portugueses na diáspora. Uma publicação “auxiliada” pelo governo português, na sua distribuição de cerca de 50.000 exemplares ( o que convenhamos,...para 5 milhões de portugueses, é uma tímida tentativa de os alcançar...), em que o MNE vai colocar todos os seus organismos espalhados pelo mundo, na promoção deste órgão de comunicação.

Mais uma vez o Governo e Portugal “esquece” a existência de dezenas de jornais, revistas, rádios e canais televisivos que, do Luxemburgo à Austrália, ou do Canadá à China, são feitos por portugueses e comunicando em português, com todos os portugueses que residem fora do seu País.

Nem uma palavra de agradecimento e encorajamento para estas centenas, senão milhares, de homens e mulheres, que tanto se esforçam, em países distantes, para manter viva a língua de Camões e para levar notícias de Portugal aos lugares mais recônditos do planeta. Não,... “antes de nós, nada existia”, parece ser o lema do actual governo!

Percebo a irritação que tal “invenção” do MNE de Portugal, ocasionou entre todos aqueles que, com tanta “carolice”, tentam manter no estrangeiro, os seus jornais, rádios ou televisões, em língua portuguesa.

Compreendo até a forma como a Associação Internacional de Jornalistas, criada há cerca de um ano e que reagrupa muitos profissionais e órgãos de comunicação de expressão portuguesa no estrangeiro, se sentiu afectada por tal medida, que não teve em consideração o interesse e objectivos deste colectivo de gente bem intencionada, que mais não quer do que contribuir para a unidade e esclarecimento entre todos os portugueses. Entendendo como “todos”, os portugueses que se encontram dentro e fora do País!

Mas não desesperem companheiros! Há pelo menos três razões que, face a este “esquecimento” do actual governo português, me fazem sorrir (embora de forma angustiada..).

A primeira é a de que, hoje, tal como no passado, qualquer comunicação etnocêntrica, baseada numa leitura umbilical lisboeta, do que é a realidade e centros de interesse, de uma população tão diversamente espalhada no planeta, só pode suscitar uma curiosidade inicial, que nem sequer colocará em causa o nosso trabalho quotidiano de informação e a preferência pelas nossas publicações.

A segunda razão, é a de que de nada vale esperarmos o reconhecimento governamental português, pelo trabalho que realizamos. Temos de acreditar nas nossas próprias forças e na população portuguesa que nos apoia, pela simples razão de que queremos servir Portugal, e Portugal não é propriedade de um qualquer governo, mas muito mais do que isso.

A terceira é a de que, o povo português, continua a ter razão quando diz: “longe da vista,...longe do coração”. E, se assim é, “amor com amor se paga”!

Deixemo-nos de embaraços patrióticos e comecemos a recusar a publicação gratuita dos comunicados, ofícios, iniciativas e tantas outras notas oficiais, vindas de governos, ministérios, embaixadas, consulados e tantas outras instâncias governamentais.

Afinal,... também somos gente!


 

 

O País (Portugal) está perdido!Fernando Cruz Gomes

Agora que as eleições autárquicas em Portugal – as principais em que a diáspora deveria votar e não está autorizada a fazê-lo... já lá vão e pertencem à História – descobrem-se mais umas quantas “carecas”. A Imprensa, livre até demais, vai atirando cá para fora com dichotes e mais dichotes. Entrechocam-se ódios. Vivem-se arrogâncias. Há, por toda a parte, toneladas de desamor. A jeito de “vendidas” ao domicílio. Quem quer mais... quem quer mais?!

Se os auto-proclamados “pais da Pátria”, depois do 25 de Abril, pudessem (ou quisessem) falar, se a sua voz ainda fosse ouvida, eram bem capazes de fazer perguntas duras. Liminarmente ofensivas. Sobretudo os tais “pais” que são honestos – ainda há alguns – haveriam de perguntar aos “meninos” de então, hoje políticos de craveira, o que é que fizeram com o País que eles lhes entregaram. Sim, porque o “25 de Abril” – não tanto o “26” – foi feito para regenerar o país. Foi engendrado para remover velhos caciques. Para moralizar costumes. E, no entanto...

-O que é que fizeram à liberdade? E à Democracia? Onde está o “País Novo” que poderia começar aí? Há mais justiça, melhor saúde, melhores políticos?

Eles não fazem as perguntas. E os políticos, mesmo que essas perguntas fossem feitas, eram bem capazes de não saber responder. Eram bem capazes de titubear, sobretudo por que há, entre os tais “pais da Pátria”, quem tenha, igualmente, muitas e variadas culpas no cartório.

De resto, pensando bem, é capaz de ser pecha antiga, em Portugal, o “deixa andar” doentio que faz do país que somos... um país perdido. É pecha antiga, sim. E ainda agora me lembram... o que, já em 1871 – sim, leu bem, 1871 – o grande Eça de Queiroz escrevia. Como se adivinhasse o que se iria passar em 2005. Como tivesse dotes de previsão. Como se conhecesse, realmente, os “meninos” que hoje manuseiam a bel talante o País que também foi seu.

Já então, para Eça, “o país perdeu a inteligência e a consciência moral”. E isto porque “os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência”.

Hoje como ontem, o País entra facilmente à deriva. Deixa-se manietar. “Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos”. São palavras escritas por quem vivia os tempos de então. E que, hoje, têm tanta razão de ser como ontem. É que, de facto, “ninguém crê na honestidade dos homens públicos,  alguns agiotas felizes exploram, a classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia”.

O grande Eça conhecia o seu povo. Sim, porque toda esta “imbecilidade” não é apenas da classe política, dos que mandam. O povo também tem a sua dose de culpa e responsabilidade.  E, no entanto, como também ele escrevia “o povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: o país está perdido”!

Eça o disse. Nós o confirmamos. E o Povo sabe que é assim. Mesmo agora, que até tem eleições e tudo. E se vai empaturrando com democracia de quanto baste e liberdade em doses barbitúricas...

 

 

Mais uma machadada do MNE nos órgãos de Comunicação Social da diáspora Por António Cardoso

A notícia publicada pela Lusa a 25 de Outubro sobre a criação de uma revista gratuita destinada às comunidades portuguesas, cujos conteúdos e distribuição ficarão a cargo do Ministério dos Negócios Estrangeiro,  é um verdadeiro atentado à dignidade e à bolsa dos órgãos de comunicação social da diáspora.

Uma empresa privada, a Figure’s, assegurará a edição e a comercialização do espaço publicitário.

“Publicidade e patrocínios serão os meios de subsistência da publicação, que quer atingir os cerca de cinco milhões de portugueses”, diz a notícia da agência.

A minha primeira interrogação é de saber que percentagem dos famigerados 10% das verbas de publicidade institucional que deveriam, em princípio, ser atribuídas à imprensa regional, de que  fazem parte os OCS das comunidades, vai contemplar esta publicação (ver abaixo portaria da AACS). Em princípio, pois ainda há pouco tempo tivemos um exemplo revelador de parcialidade na distribuição das verbas de publicidade afectadas à campanha de promoção do voto electrónico.

Consideramos que, com esta medida, o MNE, através da SECP, pretende substituir os órgãos de comunicação social privados e independentes na divulgação da informação.

Consideramos que a empresa editora de uma publicação desta natureza será detentora de privilégios que lhe permitirão obter por parte dos anunciantes privados e públicos, campanhas de publicidade que deixarão de contemplar as publicações independentes.

Da mesma forma, a distribuição gratuita desta revista através de representações do Estado, levanta questões de legalidade e prejudicará as publicações vendidas.

Que, tal como aconteceu em França com a Dassault ou a Hachette,  grupos privados se apropriem de órgãos de comunicação social para se auto-promover ou dominar jornalistas irreverentes ainda passa, que um governo de um país democrático tente fazer o mesmo é no mínimo preocupante.

Portaria n.º 1/91 de 2 de Janeiro 

A actividade desenvolvida quer pela imprensa regional, quer pelas rádios locais tem constituído um meio de inegável importância na defesa e promoção dos interesses das comunidades locais em que se inserem.

Assim, reconhecendo a importante função social que aqueles meios de comunicação têm vindo a desempenhar, entende o Governo proporcionar-lhes ajudas financeiras que não dependam directamente do Orçamento do Estado, tendo, em consequência, natureza variável, mas que, pelo contrário, possam constituir fontes de receita de carácter permanente.

Nestes termos, em cumprimento do disposto no artigo 27.º do Decreto-Lei n.º 330/90, de 23 de Outubro:

Manda o Governo, pelo Secretário de Estado Adjunto do Ministro Adjunto e da Juventude, o seguinte:

6.º Uma percentagem não inferior a 10% do valor bruto dos investimentos realizados com a distribuição da publicidade de Estado deve ser colocada, através da Direcção-Geral da Comunicação Social ou pelos próprios serviços promotores, nas estações de rádio de cobertura local devidamente licenciadas pelo Instituto das Comunicações de Portugal e nos jornais de imprensa regional regularmente registados na Direcção-Geral da Comunicação Social, desde que tal colocação não se revele incompatível com os objectivos ou condicionalismos técnicos e operacionais subjacentes à respectiva campanha publicitária.

7.º A colocação das campanhas de publicidade de Estado nos órgãos de comunicação social mencionados no número anterior deve realizar-se em partes iguais, para as estações de rádio locais e para a imprensa regional, tendo em atenção, dentro de cada uma destas categorias, critérios de operacionalidade, eficácia e equidade.


 

 

Os emigrantes... que paguem a crise!

Fernando Cruz Gomes

O ano de 1976 era ainda uma criança. No jornal “O Dia”, que então ainda se podia ler, dirigido como tinha sido pelo grande Vitorino Nemésio, a que sucedeu Alçada Baptista, havia um naipe de verdadeiros Jornalistas. Eram do grupo que a “democrática” atitude de José Saramago tinha corrido do Diário de Notícias. Nas longas noites de cavaqueira, e no meio das muitas anedotas que surgiam sempre, apareceu uma vez uma frase que haveria de ser célebre, tanto que a usávamos sempre quando queríamos zurzir nos (des)governos que iam sucedendo no País que temos.

João Fernandes – o mais “brincalhoteiro” de todos – a cada medida que visava, afinal, os que menos ganhavam, dizia: “...muito bem, os pobres que paguem a crise, claro, já que, para mais, já estão habituados... e são mais do que nós, os ricos”. O João era, em bens materiais, mais pobre do que os mais pobres... mas brincava assim com as asneiras que via fazer aos Governos – qual deles o pior – que iam abancando na mesa do orçamento...

Os povos que paguem a crise! Agora... António Braga, o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, anda por aí a dizer mais ou menos o mesmo. Os emigrantes que paguem a crise!

Em Caracas, onde o levou a sua ânsia de contactar com as comunidades, disse, alto e bom som que... Portugal espera que os seus emigrantes contribuam para o crescimento económico nacional. Disse mesmo acreditar que os portugueses que vivem fora de Portugal podem ajudar ao crescimento da economia portuguesa. Participava numa reunião com representantes do Conselho das Comunidades Portuguesas, da Banca e da Agência Portuguesa de Investimento, ali acentuando coisas mais ou menos coerentes que só pecam por não estarem englobadas num projecto sério de captação de interesse e entusiasmo. Frisou que, além de ser uma plataforma de comunicação com a Europa e estrategicamente um ponto de encontro de muitas rotas, “Portugal é cada vez mais um país de oportunidades”. E espicaçou os presentes, opinando que “há hoje condições de desenvolvimento que permitem que haja parcerias entre os empresários tão bem sucedidos nas comunidades e os empresários que vivem em Portugal”.

Amen, diremos nós cá de longe.

Alguém nos disse que, logo após a Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos e União Soviética criaram autênticas agências de “caçadores de cérebros” alemães e de outras nacionalidades com eles ligados, por forma a enriquecer a sua então emergente Ciência. Era certo e sabido, por essa altura, que a Alemanha tinha cabeças poderosas. Para além do megalómano Hitler e seus sequazes havia cientistas e inventores que poderiam enriquecer a nomenclatura científica da época.

Verdade ou mentira, é bom não esquecer que a ida à Lua foi gizada e planeada por nomes alemães - onde avulta o de Von Braun - então já ao serviço dos americanos. Idênticos “feitos” se passaram, decerto, na União Soviética, onde pelos vistos até mudavam os nomes aos tais “malandros” alemães que se iam apanhando...

Hoje, Portugal, reduzido à sua mais ínfima expressão, precisava, também, de uma brigada de caçadores de cabeças. Talvez até de uma brigada de caçadores de cabeças e de... investidores. Encontra essa gente nos mais diversos confins da terra. Disseminados em vários países e a enriquecer outras culturas. Talvez a fungar saudades da terra-mãe que sempre lhes foi madrasta.

Caçadores de cabeças! Uma necessidade imperiosa para o nosso pobre país de origem, que continua, paulatinamente, a bancar de grande senhor, rico e poderoso. Que continua cego e surdo aos “clamores da saudade” - com os nossos também à mistura - que pedem, apenas, reconhecimento e lhaneza de trato. Que se interrogam sobre como é possível dedilhar lá longe as cordas piegas de um “saudosismo” que nem governantes nem governados têm, a respeito dos que, um dia, por este ou aquele motivo, sairam do torrão natal.

O sr. António Braga e os seus companheiros deveriam aprender, de facto, a lidar com as comunidades. Ele e um monte de outras pessoas que passaram pelo Palácio das Necessidades e se sentaram à “mesa do Poder”. Talvez que as comunidades – que são tratadas como “pobres” quando se trata de receber seja o que for de Portugal, pelo menos no chamado “resto do mundo” – entendessem melhor a mensagem que agora chega.


 

 

Afinal quem poderá votar para o presidente da República ?

Antonio Cardoso

A minha última crónica sobre o direito de voto dos emigrantes bi-nacionais para as presidenciais em Portugal, causou alguma confusão na mente, não só, dos interessados em exercer esse direito como na certos funcionários públicos, sempre prontos a responder ao que desconhecem com os habituais disparates.

Julgo pois ser pertinente voltar a escrever sobre esta matéria e propor a instauração de um debate público até às próximas eleições presidenciais.

Soubemos entretanto que, alegadamente, “Lisboa já foi consultada” por vários embaixadores e cônsules sobre a interpretação da Lei Orgânica 5/2005, que a invariável resposta seria de “deixar andar, há juristas a trabalhar no assunto” e não dificultar, por enquanto, o recenseamento dos candidatos... a eleitor.

Passei algumas horas a tentar interpretar as intervenções dos deputados na Assembleia da República sobre esta matéria . A minha conclusão é simples : se em 1997, o Partido Socialista não tivesse tido receio do resultado dos votos dos emigrantes, teria aceite que no texto constitucional, ficasse definitivamente delimitado o universo eleitoral dos emigrantes que poderiam votar nas eleições para o Presidente da República.

Em vez disso, tomaram-se disposições provisórias que geraram a Lei Orgânica 3/2000 e atribuiu capacidade eleitoral aos cidadãos inscritos nos cadernos eleitorais até Agosto de 2000, data da publicação dessa lei.

Um dos artigos (1° B – 3.), da Lei 5/2005, que daria para rir se o caso não fosse tão sério é o seguinte: “São também admitidos ao recenseamento eleitoral do Presidente da República, para além dos casos referidos nos números anteriores, os cidadãos portugueses que se tenham deslocado e permanecido em Portugal pelo menos 30 dias nos últimos cinco anos e fizeram prova de conhecimento da língua portuguesa”.

Resta saber como se poderá comprovar a dita permanência, se é 30 dias em cinco anos ou duma só vez e se vão arranjar professores de português para verificar o conhecimento da língua portuguesa de quem se quer recensear.

Por muito que tente, não consigo entender que um cidadão português no estrangeiro possa votar para o Parlamento e não possa exercer esse mesmo direito, segundo os mesmos critérios, para a Presidência da República.

Um dos nossos leitores, bastante enervado, falou-nos da discriminação que existe em Portugal em relação aos emigrantes, invocando nomeadamente a desproporção de representatividade na Assembleia da República. De facto, a representação proporcional é um princípio essencial do sistema político português e está garantido contra a revisão constitucional.  Com quatro deputados que representam cerca de quatro milhões de emigrantes espalhados pelo mundo, é evidente que esse princípio não é respeitado. 

Vamos obviamente voltar a este assunto, com entrevistas, testemunhos e comentários de eleitos e de cidadãos bi-nacionais que querem exercer os seus direitos cívicos no país onde nasceram e que amam.

 

 

Mudem de vida - filiem-se no PS

Orlando Castro

Já estou, como dizia o meu amigo Fernando Frade no seu Bissapa, a ficar matumbo. Afinal Portugal é o quê? No dizer de António Ribeiro é um país a caminho do terceiro mundo, talvez porque não haja quarto. Os socialistas de cartão continuam a ser donos e senhores dos tachos todos. E como todos podemos ser socialistas, não vejo razões para que os portugueses não ponham as ideias de Poder acima do poder das ideias.

Vem isto a popósito da nomeação governamental do deputado socialista Guilherme d’ Oliveira Martins para presidente do Tribunal de Contas? Não, de maneira nenhuma.
Vem isto a popósito da nomeação governamental do socialista Fernando Gomes para a administração da Galp? Não, de maneira nenhuma.
Vem isto a popósito da nomeação governamental do socialista Armando Vara para a Administração da Caixa Geral de Depósitos? Não, de maneira nenhuma.
Vem isto a popósito de o Governo socialista ter contratado o socialista António Vitorino para representante do Estado nas negociações com os italianos da ENI no processo de recomposição accionista da GALP? Não, de maneira nenhuma.
Com um país assim, onde são (quase) sempre os mesmos a ter acesso ao poder, sendo todos os outros relegados para fora de jogo, dou razão a um socialista que, a propósito das críticas que aqui lhes tenho feito, me respondeu enviando-me uma ficha de filiação com uma simples mensagem: “Muda de vida”.




Incêndios, Mário Soares e as eleições autárquicas

António Cardoso

Os incêndios
Escrever sobre o mês de Agosto no nosso país sem referir os incêndios poderia ser considerado uma falta profissional por quem habitualmente faz o favor de nos ler.
O problema é que não percebo absolutamente nada do assunto nem consigo compreender a incapacidade dos governos que se têm sucedido estes últimos anos para enfrentar esta catástrofe.
Não sei se é verdade o que terá dito o vice-presidente da Associação Nacional dos Bombeiros Profissionais : “é inexplicável que se fale em falta de meios humanos quando há bombeiros disponíveis nos quartéis”. Dá o exemplo dos Sapadores de Lisboa que só foram chamados no domingo, dia 22 de Agosto - pela primeira vez esta época... E acrescenta que há “má organização,” com bombeiros do Centro a combater incêndios no Norte e bombeiros do Norte a combater incêndios no Centro, enquanto chega uma vintena de bombeiros da Madeira e outra dos Açores...
O presidente da República sugere entretanto que “as culpas são dos proprietários que não limpam as matas”, mas o incêndio que ameaçou a cidade de Coimbra aconteceu na Mata Nacional de Vale de Canas, que pertence ao Estado.
Também não entendo que os nossos jornalistas de televisão e outros estrangeiros prefiram mostrar imagens de desespero de pobres cidadãos aos gritos, de balde de água na mão ou com ramos de eucalipto, tentando apagar enormes fogos para defender as suas casas. Será isto jornalismo? Como diz
  um célebre director de televisão, “passamos as imagens que vendem”  ou “arranjamos programas para inserir na publicidade”.
Tem razão um quadro superior do ICEP, quando afirma que, “o que se ganhou em turismo e credibilidade com o Euro2004, perdeu-se com estas imagens de um Portugal pobre, desorganizado e desorientado”.

Mário Soares
Contrariamente ao que repetidamente tem afirmado nestes últimos tempos, Mário Soares, com 81 anos, é de novo candidato a Belém.
É sabido que um dos problemas da velhice é a perca progressiva de memória. Mas duvido que o ex-presidente, ainda bem verde, sofra desse mal. Acreditamos é que padece de uma outra doença que se chama “Política”.

Eleições autárquicas
“O Senhor é um mentiroso, mentiroso é o Senhor, eu também sou licenciado, ou tratam-me por Doutor ou então trato-vos por senhores”.
Estas são algumas das trocas de palavras que ouvimos num debate televisivo recente entre os candidatos à câmara de Amarante.
Em certa época, estes e outros insultos e acusações, seriam provavelmente resolvidos em duelo mortal, mas há muito que se tornaram habituais e até indispensáveis nestes debates, para aumentar as tais audiências.
A jornalista que entrevistava os três candidatos, também lhe chamavam doutora, tentou timidamente acalmar os ânimos e centrar um debate que poderia ter sido interessante se os candidatos tivessem realmente ideias novas a propor para esta cidade que pouco a pouco tem vindo a perder importância e a sua antiga vitalidade.


 

 

Gralhas ou… grunhos?!

Fernando Cruz Gomes


Gralhas. Surgem por toda a parte onde há gente e fazem de contas que também o são, mesmo não o sendo de facto logo que abrem a boca. Pelos vistos, e sem o saberem, são primos carnais, de primeiro grau, dos grunhos – os grunhos lusitanos – que a Clara Ferreira Alves, uma finíssima articulista, há tempos descobriu. Como eles imiscuem-se na vida de toda a sociedade, entravam o caminho do mais sisudo e sabedor, sem deixar de atirar aos ares as postas de pescada que nem carapaus de gato são.

 

Li, há dias, que pode haver grunhos geniais. Só que essa eventual genialidade terá sempre uma frequência reduzida, já que os grunhidos, ou seja, as manifestações dos grunhos, são primitivos, estando mesmo associados ao atraso mental.
- Olha-me esta me...da! Vá para o car...o! Então esta besta não vê que eu estou aqui... que sei do que falo...!
E olham à volta para ver se outras gralhas lhe aparam o sermão. Na atávica gralhada que se vai formando, se há mais do que um... ninguém mais se entende. Em formação quase corporativa, transformam-se pacatos locais de convívio em gralheiras de fazer tremer o mais pacato dos cidadãos.
No Verão, as gralhas – que são, sobretudo, masculinos e se consideram, a toda hora, muito homens... - entendem que têm de vender o seu peixe, enfermizando a estada dos outros. Com muitos fo...-se à mistura e uns quantos f. da. p. Há dias que perdemos a conta se nos dermos ao traba-lho de enumerar os palavrões e aleivosias que se ouvem.
Dizem-me que nem é por mal. Que esta espécie de grunhos lusitanos, que foram emigrando aos poucos para toda a parte, são apenas uns pobres saloios que de nada sabem. E que atiram aos ares a sua voz altitroante para se darem ares. E para assumirem uma espécie de protagonismo que não têm.
- Era mesmo o que faltava! Este caramelo agora a dar-me música. Um porra que não sabe onde cair morto. Vá... vá... que eu não estou para aqui ficar toda a vida. Olhó o car...o! Uma cambada de cab..es que pensam que têm o rei na barriga... Se trabalhassem como eu...!
Pedaços de conversa que se ouviram, há dias, no próprio Consulado, a uma gralha que víamos, dias antes, numa repartição canadiana qualquer, quase de joelhos e de chapéu na mão a pedir o “please... please... I need...” Ali, não. Que “sou eu que pago a estas bestas, que estão aqui para me servir... f...-se”.
As gralhas. Os grunhos. Primos direitos. Uns ainda andam por lá a enfernizar os indígenas da Mãe Pátria. Os outros, transplantados para um ambiente mais sofisticado (o que nem quer dizer melhor) da emigração... andam por aí, também, com as mesmas cervejolas no bucho, com a voz entaramelada do ripanço que querem ter, olhando o seu próprio umbigo e não permitindo que ninguém lhes passe à frente, mesmo que esteja lá muito mais adiante.
Nos semáforos, nas passagens dos semáforos, ganham novos contornos. Novas asas, talvez. As gralhas não permitem que ninguém use os seus próprios direitos, se beliscarem, mesmo ao de leve, os interesses de um desses espécimes.
- Olha-me este sacana... a pensar que me fo...e! Essa agora... ó seu ca...ão.!
Atiram aos ares os palavrões sem nome e levantam o dedo seja para quem for. Arrancam com o carro numa trovoada de roncos e de... insultos. “Não queria mais nada este f. da. p. Vá-se fo...er. Era mesmo o que faltava...”
Como a Clara Ferreira Alves entendo que este espécime lusitano, quer seja grunho ou gralha... deverá começar a definhar... definhar... para se extinguir de vez. F...-se!


 

 


Portugal! 1580 ou 1640?...

Luís Barreira

De cada vez que regressamos das férias gozadas em Portugal e, independentemente do ar refrescado ou bronzeado que nos acompanha e da sensação de “baterias carregadas”, para mais um ano de intenso trabalho, trago igualmente uma sensação amarga na bagagem, como se uma nuvem de insatisfação cobrisse a felicidade de umas férias bem passadas.
E o mais grave é que essa sensação aumenta, ano após ano! Naturalmente que isto acontece, porque sentimos o País como o nosso e tudo o que de mal lhe observamos, são como nódoas na nossa própria toalha de mesa. Além disso, as nossas observações são, muitas vezes, influenciadas pela análise comparativa que fazemos com o país em que vivemos e pelas nossas próprias experiências de vida. Razão da muita “violência” verbal, na nossa análise crítica de Portugal e dos portugueses que lá vivem.
Somos de facto muito críticos de nós próprios. Exageramos de pessimismo, de dúvidas, de fados tristes, de resignação fácil e de desconfiança. Flagelamo-nos tantas vezes de insultos, de escárnios, de piadas mordazes, de combates estéreis e de invejas incontidas.
No entanto, ao longo da nossa história e apesar de todos os defeitos que nos caracterizam, fomos capazes, em dados momentos, de desafiar o destino que nos impunham, renovar as esperanças, mobilizarmo-nos em torno de grandes ideais e lutar, voluntária e desinteressadamente, pelo bem colectivo.
Mais recentemente e apesar das dificuldades em que o País tem estado mergulhado, o povo exibia com orgulho a Expo 98, como a sua jóia da coroa e gritava a plenos pulmões e a bandeiras despregadas, pela vitória da equipa nacional no Euro 2004, reforçando a sua auto-estima e os símbolos da sua unidade, mesmo que os motivos evocados não fossem autênticas causas nacionais!...
Nunca fomos, enquanto povo, “gente rica”, mas sempre soubemos fazer das “tripas coração” para vencer os obstáculos que nos surgiam e que, algumas vezes, nós próprios engendrámos. Mas, independentemente do passado longínquo ou próximo, o que se passa agora, começa a preocupar-me profundamente!
A democracia, uma das nossas conquistas mais recentes, proporcionou-nos a abertura essencial ao mundo, ao desenvolvimento económico e cultural do nosso País e, necessariamente, a alterações do nosso tecido social. De um país marcadamente dividido entre ricos e pobres, nasceram várias camadas intermédias, a que alguns chamam: “classe média baixa”; “classe média” e “classe média alta”, quando se aproximam do estatuto de ricos.
Estes estratos sociais têm-se desenvolvido através da diversificação da economia portuguesa e da necessidade da gestão qualificada, nos mais diversos domínios e são, naturalmente, consequência das novas condições de vida, que têm permitido a formação de milhares e milhares de universitários (o que antes era, quase e só, para os filhos dos ricos...).
E é exactamente uma parte dessa camada intermédia, envolvida na política, na economia e na vida social do País, que me preocupa cada vez mais!
Habituados a grandes carros de marca, casas com piscina, excelentes restaurantes e férias no Brasil ou no México, impulsionados pelas políticas de soluços tecnológicos sem base económica sustentada e aculturados por estilos de vida falsos e supérfluos, esta parte cada vez mais importante da nossa sociedade, alimentada pelo fácil estrelato televisivo português, está-se inteiramente nas “tintas” para as dificuldades estruturais do País e para os necessários sacrifícios a realizar e empreende uma política pessoal do “salve-se quem puder”, mesmo que isso implique uma atitude “mercenária”, relativa à sua identidade nacional, à sua pertença a uma cultura e a um povo, ou à sua dignidade e verticalidade pessoais.
“Entreguem ‘isto’ aos espanhóis!”, “Precisamos é de um novo Salazar!” e “Ponham um Comissário europeu a gerir esta ‘história’...”, são frases que
  correm cada vez mais soltas, na boca desta gente, não porque estejam a pensar no necessário desenvolvimento do País e do seu povo, mas sim na continuidade do dinheiro que tem circulado nas suas bolsas.
Penso que já ninguém, no seu perfeito juízo, acredita no “orgulhosamente sós”, mas custa-me pensar que, a geração que nos substitui, possa desejar a alternativa de um futuro “servilmente acompanhado”.


 

 

 Combater a pobreza... sem combater a corrupção?!

Fernando Cruz Gomes

Os inefáveis mentores dos G8 – em que, naturalmente, o Canadá está envolvido – toveram, não há muito, uma reunião. Pelos vistos tinham como ponto principal em agenda... a tentativa de anular a pobreza em África. A reboque da boa-vontade de cantores internacionais, estudavam a possibilidade de eliminar os débitos internacionais da África, assim a modos de como passar uma esponja pelas dívidas de uns quantos.

E acreditaram estes senhores, alguns dos quais mais parecendo generais de opereta e, portanto, sem exército que se veja, que ajudavam África. Que o continente mais pobre teria, com o gesto de se perdoarem as dívidas, mais uma possibilidade de sair da pobreza.

Naturalmente que a ideia estava votada ao fracasso. E estava votada ao fracasso, porque o grande flagelo de África não é a pobreza. O grande flagelo chama-se corrupção. Esta, qual hidra de muitas cabeças (e não apenas as 7 que o bom do Hércules teria descoberto), campeia à solta por todo o continente. De Luanda a Abidjan e de Lagos a Kinshasa. Mete-se no negócio dos diamantes, da mesma forma que se encharca de petróleo e se mobiliza onde a madeira preciosa avança. E mesmo em zonas onde não há subsolos tão ricos, há sempre maneira de se fazerem uns trocos...

A corrupção é mesmo o grande flagelo de África. Com tentáculos por todo o mundo. Como a toda a hora vimos e ouvimos. Provado. Ainda há dias líamos em tudo o que é Jornal que as autoridades de Paris vão continuar a sua senda jurídica contra um tal Falcone, apesar das pressões do Governo de Luanda a exigir a retirada das acusações no âmbito do caso Angolagate. Pelos vistos, José Eduardo dos Santos está entre os acusados de receber comissões elevadas no âmbito daquele caso. E que tem a ver com a venda de armas russas a Luanda por intermédio dos empresários Pierre Falcone e Arcadi Gaydamak.

Uma das mais recentes edições do Expresso, que cita “um dos envolvidos” no escândalo (que já tem quase barbas...), diz que “Eduardo dos Santos é acusado pelo juiz de ter, directa ou indirectamente, recebido milhões de dólares de comissões”.

Claro que, neste caso, Angola rejeita as acusações de tráfico ilegal de armas e de fraude fiscal cometidos por Pierre Falcone, porque o material não seria de origem francesa nem transitou através de França. Só que a justiça de Paris continua a dizer que o montante das verbas desviadas neste negócio “atingiu o valor de 300 milhões de dólares”.

E este, naturalmente, é só um exemplo. Um exemplo que poderia ser multiplicado por muitos. A corrupção é, de facto, o maior e mais grave problema de África e enquanto os países dos tais G8 não o reconhecerem oficialmente... são “paninhos quentes” as panaceias que querem usar na luta contra a pobreza. Já outros o tentaram. Já outros falharam.

Há países em Africa – e Angola será um deles – em que se deveria corar de vergonha ouvir dizer que há crianças a morrer de desnutrição. Porque, de facto, esse País – e vários outros do mesmo continente – é demasiadamente rico para alguém acreditar que... seja pobre! E mesmo que nos digam que é impossíveis desvendar os mistérios de tanta pobreza, acreditamos – como Napoleão Bonaparte – que “impossível é uma palavra que só existe no dicionário dos idiotas”. O general e estadista francês sabia o que dizia.

 

 

Banca portuguesa em França pode desaparecer Anónio Cardoso

 No princípio da década de 90, fomos encarregados de organizar um grande espectáculo gratuito no Zenith de Paris cujos custos totais, sem contar as agências, superaram na altura 1 milhão de francos, para promover a entrada do banco Nova Rede em França.
Entrevistámos o presidente, Jardim Gonçalves, para o jornal Encontro e ficámos estonteados com as perspectivas por ele delineadas para o futuro da banca portuguesa neste país.
Quinze anos depois, os resultados estão à vista O banco BCP anunciou para breve a cedência da maioria do capital a um banco francês. A Banque Franco-Portugaise, o Banco Mello, a União de Bancos Portugueses, o Banco Português do Atlântico, o Banco Pinto & Sotto Mayor e o Banco Borges & Irmão já fazem parte da história mais recente das comunidades.
De outros, desaparecidos há mais tempo, já poucos se recordam.
Um banco é uma empresa comercial que tem evidentemente por objectivo principal realizar benefícios.
Mas há práticas que não podem ser idênticas às do comércio tradicional a partir do momento que uma instituição bancária dispõe de poderes suficientes para criar dependência da parte dos seus clientes.
As comissões ou despesas por vezes “à la tête du client”, de tenue de compte, dépassement non autorisé, commande de chéquier urgent, lettres d’injonction, frais de rejet e outras simpáticas definições que aparecem no extracto bancário dos clientes à frente dos montantes debitados nas suas contas, permitem aos bancos portugueses, franceses e outros, arrecadar receitas importantes que lhes permitem melhorar a sua conta de exploração, explorando o cliente.
As condenações de certas práticas nos tribunais não assustam os gestores (basta consultar o site internet da Association des Usagers de Banque, para se ter uma ideia), pois sabem que são muito poucos os que recorrem a esse extremo para regularizar conflitos, muito menos os portugueses, e que a imprensa generalista, também por vezes dependente, dá pouca ênfase a esses problemas.
Alguns demonstram grande engenhosidade para subtrair sem autorização das contas dos clientes somas destinadas a companhias de seguros do mesmo grupo, após redução da devida comissão do banco. Assim, a grande maioria dos clientes da Caixa Geral de Depósitos em França, com excepção de alguns, talvez considerados mais eruditos, é debitada todos os anos dum montante de 19,06 Euros, sobe a denominação “compte de sécurité”. 
Esta verba, multiplicada por uns milhares vai de facto direitinha para a companhia de seguros Fidelidade. Foi certamente uma boa ajuda para inaugurar as novas e independentes instalações na Ópera, patrocinar o Parc des Princes e dotar a companhia de meios para angariar e assegurar contratos na área do futebol da capital francesa, provavelmente motivados pela paixão desportiva do seu director.
Confirmação feita pelos responsáveis do banco, um deles garante-nos que este “seguro de vida” (que nenhum dos nossos interlocutores clientes da Caixa diz conhecer) “...até já tem servido... os clientes foram devidamente informados através de uma carta em 1998 ou 99, tinham um certo tempo para dizer que sim ou não e foram ou não debitados em função da resposta”.
Ainda bem que os seguros servem por vezes! Quanto à informação, o banco enviou uma proposta para esse seguro e quem não respondeu foi debitado, ou seja praticamente todos os clientes seleccionados. Dizemos, “seleccionados” porque detectámos vários clientes que respondem às condições de adesão e que nunca foram angariados nem debitados. Julgamos nós, que se trata de uma venda forçada que a jurisprudência condena. Um outro funcionário do banco disse à Vida Lusa que tinham ordens para creditar a soma a quem reclamasse, não sem tentar justificar e vender o produto. Reconheceu que foram sobretudo os mais jovens a pedir a restituição das verbas, algo que pudemos confirmar com vários clientes. Outros, provavelmente a maioria, disseram-nos que não tinham gostado da maneira como tinham feito “aquilo”, mas tinham também as contas em Portugal e não se queriam chatear com o banco por causa disso.
Por sua vez, o director da Fidelidade, Carlos Vinhas Pereira, minimiza este procedimento avançando entre outras justificações que “este tipo de seguros nem sequer é rentável para a companhia e também existe nos outros bancos”.
É caso para nos perguntar-mos porque o fazem, correndo o risco de receber reclamações de clientes descontentes. Quisemos verificar se esta forma de agir seria comum a todos os bancos que propõem este produto, mas constatámos, nomeadamente no BCP, que o cliente só é debitado depois de ter sido informado pessoalmente e ter assinado o documento.
Depois da perdas dos câmbios, consequentes à entrada do Euro, os bancos portugueses tiveram obviamente de arranjar outras fontes de receita para as colmatar.
Com a entrada em vigor da directiva europeia (ver Vida Lusa n° 79) sobre a obrigação dos bancos comunicarem à administração fiscal dos países de residência o montante dos juros das contas de poupança, já se prevê uma forte diminuição nas transferências dos emigrantes para Portugal, que muita falta vão fazer agora que o rating de Portugal nos mercados financeiros foi reduzido devido à situação económico-financeira do nosso país.
Os bancos que mantêm grandes discrepâncias entre depósitos e empréstimos tonam-se como já escrevemos, cada vez mais dependentes do mercado monetário que está muito mal de saúde neste momento.
Na realidade a banca portuguesa, habituada que está a pedir garantias muito superiores aos empréstimos propostos (lembra-nos aquela de emprestar o chouriço a quem dá um porco) com as taxas mais elevadas do mercado, vê, aparentemente sem preocupação, os clientes passarem para a concorrência francesa. Resultado, bancos como o BCP terão provavelmente duas vezes mais depósitos que empréstimos concedidos. A diferença vai para o mercado monetário, com pouco risco, mas com taxas muito inferiores às que obteria concedendo crédito à clientela.
Lá estão as tais comissões chorudas para compensar.
É provavelmente por estas e outras razões que o BCP pensa que a banca em França já deu o que tinha a dar.
E, depois de ter adquirido o Sotto Mayor, o Atlântico e a União de Bancos, prepara-se agora para vender a maioria do capital à Caisse d’Epargne.
Então o Governo português que impediu que o Sr. Champalimaud vendesse os seus bancos aos espanhóis, privilegiando o BCP porque, dizia Jardim Gonçalves, era necessário termos um grande banco, agora não se preocupa que se entregue uma boa fatia do mercado étnico português aos franceses?
Porque não fazer agora também intervir a Caixa Geral de Depósitos em França já que o BCP acha que o mercado já não vale a pena?!
E a missão mais nobre da Banca Portuguesa estabelecida em França não será apoiar as iniciativas da nossa comunidade, como se vinha fazendo até há poucos anos?
Já esqueceram que se estão cá o devem à emigração? Não vieram para servir os franceses, estes não precisam dos bancos portugueses.


 

À volta cá vos espero”!...

Luis Barreira

 

Uma quantidade apreciável de portugueses, nomeadamente aqueles que se encontram na Europa, vão partir para as ansiadas férias em Portugal .

Todos os anos se cumpre este ritual. Todos os anos, milhares e milhares de portugueses, enchem as estradas e aviões, com um único objectivo: ver as suas terras e as suas gentes e gozar uns dias de merecido descanso.

Vai partir esta multidão de “turistas”, que poupam uns “cobres” durante um ano inteiro, para gastar durante as férias, dando vida  e ânimo comercial às regiões mais recônditas do País e que têm o “azar” de não serem considerados estrangeiros e, portanto, não merecerem qualquer reconhecimento particular das autoridades portuguesas, enquanto fonte de rendimento para aliviar o déficit das contas públicas. Estes portugueses, “de gema”, continuam teimosamente e como “formiguinhas”, a seguir o seu carreiro habitual, mesmo que as passagens de avião sejam cada vez mais caras e a gasolina quase um produto de luxo.

Nesta escolha de viagem, pouco importa se um governo cai e outro se levanta, se o País arde ou há falta de água, se a segurança falha ou os serviços estão em greve. Estes “turistas” não decidem as suas férias em função das conjunturas ou calamidades, eles são parte da sua terra e não abdicam perante as dificuldades, considerando-as parte integrante do seu inevitável sofrimento.

Levam na bagagem dinheiro, ideias e vontade de fazer coisas. São críticos ao que de mal constatam na sua aldeia, vila ou cidade, pela experiência vivida nos países de acolhimento de onde vêm mas, sobretudo, porque consideram a terra que os viu nascer como sua e sofrem com a inércia, a incompetência e o laxismo, de muitos dos seus responsáveis locais e nacionais.

Estes “turistas”, que falam português, não escondem o seu desânimo, por ver Portugal cada vez mais longe do estado de desenvolvimento dos países que os acolhem, mas fazem-no porque, a dor que lhes vai no peito, é o não poderem regressar mais rapidamente, à terra de onde um dia partiram.

Estes muitos milhares de homens e mulheres, que “acartam” os filhos consigo, mesmo que muitos dos garotos já desejem passar férias noutras paragens mais convidativas, mais não fazem do que tentar prolongar, o mais possível, o amor natural que sempre nos ligou à mãe pátria.

Podem chover críticas ao seu comportamento, clichés sobre a sua identidade e oportunistas dos seus recursos. Podem mesmo alguns serem objecto da já tradicional inveja e sentirem-se desintegrados na sua própria terra mas,... os portugueses, que vivem e trabalham fora do seu país, já estão habituados a sofrer esse tipo de incompreensões e não desistem  de clamar que,  aquela terra, também é sua!

Nesta debandada geral alguns regressam mais animados, mais conscientes das suas origens, mais optimistas, para um novo ano de trabalho e sacrifício e com as “baterias” carregadas de saudade. Outros, tantas vezes vítimas do nível das suas próprias expectativas, não deixam de expressar um certo descontentamento e desilusão, sentimento que, um ano de afastamento, acabará por dissipar.

O mais importante, no entanto, é que partam e regressem de excelente saúde porque,...”à volta cá vos espero”!


 

 

Assobiar para o lado...

Fernando Cruz Gomes

O governo de José Sócrates, a despeito de dispôr de maioria parlamentar, é um governo fraco. Daqueles que  necessita de se defender até da própria sombra. E vai dando saltos em frente que mais não são do que... saltos à rectaguarda. Chega a parecer confrangedor assistir ao dia-a-dia de um Governo assim. E a verdade é que até diz coisas bonitas, palavras de esperança. E traça caminhos que poderiam ser úteis. Para quewm tem uma maior parlamentar como a do PS, não restam dúvidas de que já deveria ter feito mais, aproveitando, sobretudo, o “estado de graça” que pensa ainda ter.

Ainda agora, com a ideia consolidada de fazer referendo sobre o aborto, José Sócrates mais não fez do que tentar desviar as atenções dos Portugueses para a sua quase inépcia governativa. Quem o diz é Marcelo Rebelo de Sousa, na RTP.  Para este pensador, o PS está a utilizar a convocação de um novo referendo ao aborto como um estratagema para “desviar as atenções”. Há que preparar um orçamento difícil para 2006? Há que preparar os Portugueses para duas derrotas mais do que evidentes? – Dá-se um saltinho em frente e atira-se com um referendo que, esse sim, se arrisca a ganhar.

Esta consulta é assim a modos de “pão com mel” para quem se está a pôr a jeito para seguir “de vitória em vitória... até à derrota final”. Nas Eleições Autárquicas e nas Eleições Presidenciais é previsível que a cor rosa fica algo desbotada. Salta aos olhos que o referendo, para mais entre as duas eleições, é algo que vem mesmo a calhar.

Raciocinava o professor que “o PS vai ter o seu grande teste económico e financeiro com o Orçamento para 2006 porque com este Rectificativo ele ainda pode dizer que é uma rectificação do Orçamento de Santana Lopes”. Pois... mas vêm aí contestações e mais contestações. Talvez lá para Outubro. E esse orçamento vai ser criticado a bom criticar, com os socialistas do Governo a terem de avançar com uma ou outra medida desagradável. Assim, nada melhor que o tal referendo para desviar as atenções do Orçamento de Estado.

A situação económica é, de facto, alarmante. E ao Governo é imperioso ter em atenção as dificuldades das classes mais pobres. Relançar, assim, o tema do aborto – para mais entre duas eleições – não é mais do que não entender o que deve ser a prioridade. E confundir as pessoas.

Só que há estrategos que pensam que o melhor é capaz de ser dar a entender que nada se passa, assobiar para o lado, em suma.


 

 

G8! A oportunidade de fazer história.

Luis Barreira

 

A recente cimeira dos G8 (os países mais ricos do mundo), que se realiza na Escócia, nos próximos dias, vai permitir saber quem é quem, no complexo mundo deste iniciar de século.

Se os países da União Europeia já reagiram à extrema desigualdade existente entre países, reservando uma percentagem significativa da sua riqueza nacional para esse efeito até 2010 e, mais ainda, até 2015, resta saber como vão reagir outros países, como os Estados Unidos da América, a Rússia, ou o Japão.

Cercados por um grande atraso cultural, económico e social, condicionados pela globalização, que lhes reserva um papel de explorados, no âmbito do comércio internacional, alvo de toda a panóplia de especuladores de ódios, que lhes vendem armas e, muitas vezes, geridos pelas castas corruptas dos seus dirigentes nacionais, as populações adultas e infantis de África, dos bairros pobres da América Latina e das regiões mais atrasadas da Ásia, continuam a morrer, todos os dias, de fome e pestes, perante a indiferença dos seus semelhantes, vivam eles a seu lado, ou em países, cujas “sobras” da sua alimentação e vestuário, poderiam reduzir, a metade, as enormes diferenças existentes.

Se tivermos em consideração a possibilidade de desvio das enormes despesas, realizadas pelos responsáveis políticos mundiais em favor da guerra, para acções em favor da paz e da vida dos seres humanos, então poderíamos erradicar a pobreza da face da terra, quase que definitivamente.

No primeiro caso, que nos diz directamente respeito, enquanto cidadãos, habituámo-nos a viver com as imagens televisivas da miséria de países distantes, tal como os nossos antepassados, no período feudal, encaravam, pacificamente, a extrema pobreza, a viver ao lado da extrema riqueza.

Se felizmente a moral social mudou muito, a atitude ainda é fraca e desconfiada!

Quantos de nós não pensam nessas esfomeadas populações, quando deitamos bifes e peixes inteiros, para o caixote do lixo, porque já não temos mais apetite?

Quantos de nós não se lembram dessas esfarrapadas populações, quando deitamos fora sapatos, roupas e tantos outros utensílios necessários à vida quotidiana, porque já passaram de moda ou porque não nos servem?

E, por fim, quantos de nós não se sentem impotentes para dar o que podem dar e desconfiados de que, o que damos, não vai parar à mão das populações que mais precisam?

No caso dos nossos governos, os governos dos países ricos, que pugnam e se apresentam como paladinos da democracia ( a soberania ao serviço do povo), sejam eles americanos, europeus ou asiáticos, que atitude convincente e eficaz têm tomado, no seu conjunto, para diminuir o enorme e progressivo fosso, entre ricos e pobres deste planeta?

Será que a nossa riqueza se baseia na extrema pobreza de outros?

Será que é necessário deixá-los morrer, por imperativos demográficos, ou deixá-los pobres e na ignorância, para melhor os controlar?

E isto em favor de quem? De nós próprios, para o nosso bem estar actual, até que se revoltem contra nós e usem as armas que, alguns de entre nós, lhes vendem?

Estamos num momento de grande viragem social, à escala mundial! Isto não acontece num dia, num  mês ou num ano. A escassez do ouro negro, que produziu o modelo do nosso desenvolvimento, no século passado, a desigualdade do comércio internacional, que alimentou a soberba de muitas riquezas individuais e a expansão, moralmente e mundialmente aceite, dos direitos do homem, estão a produzir conflitos insanáveis, mantendo a actual visão política dos dirigentes internacionais.

Espera-se muito desta reunião dos G8! Se as suas conclusões não perspectivarem um futuro equilibrado, para o planeta e seus habitantes, a história mundial do futuro lembrar-se-à, da fraqueza e imoralidade dos povos e dirigentes políticos do ano de 2005.


 

 

Uma geração de “choque”!

Luis Barreira

 

 

Com um ligeiro sentimento de estarmos um pouco perdidos, no meio de acontecimentos que nos escapam, mas dos quais sofremos as consequências, a minha geração continua na esperança do direito a uma velhice descansada.

Fomos educados num regime de grandes restrições. Não podíamos falar mal do governo, do patrão, ...nem mesmo do vizinho.

Crescemos a pensar que havia uns que podiam ter tudo e outros que teriam de conformar-se com a miséria ou, na melhor das hipóteses, serem “remediados”. Os três grandes efes: Fado, Família e Futebol eram os valores da época (Fado para cantar a tristeza, família para elevar o sentido de responsabilidade e futebol , para dar escape aos nervos).

Atirados, em plena juventude, para milhares de quilómetros de distância e de armas na mão, obrigaram-nos a fazer uma guerra contra seres que desconhecíamos e por razões que ignorávamos.

Longe dos problemas no Médio Oriente, sofremos no entanto as suas consequências com os “choques petrolíferos”, no início dos anos 70 e nos anos 80 (e mais recentemente o do  “barril a 60 dólars”, por causas outras). Tudo isto com o inevitável agravamento do nível de vida, com menos “cobres” na algibeira ,mas a vida é feita de luta e já estávamos habituados.

Não havia salário mínimo, cartões de crédito, juros bonificados, carros a preços acessíveis, roupas de marca ao alcance de todas as bolsas e... viagens, só a Badajoz, para comprar caramelos.

Da Europa e do resto do mundo, só os ritmos dos Beatles e dos Rolling Stones, para balançar as calças à boca de sino e as camisas às florinhas (compradas nos “Porfírios”), uns livritos e uns jornais atrasados, lidos à sucapa e enterrados em sacos de plástico e uns cigarros de contrabando, para fumar em ocasiões especiais.

Com o 25 de Abril de 74, a minha geração, deu largas à imaginação e berrou o incontido no estômago, no coração e na cabeça.

Era preciso repensar os princípios, a moral, a família, a sociedade, o Estado, os sexos, a economia, o País e....até o mundo!

Esta geração de “dadores” queria dar tudo o que não tinha tido, sem perceber que não podia dar o que não tinha!

Hoje, face às dificuldades de um  presente não imaginado, mas nem por isso mais difícil do que um passado experimentado, a minha geração de sentimentais recorda,  com um sorriso reflectido, que: alguns dos princípios devem permanecer imutáveis, porque actuais; que algumas condutas morais estão acima dos tempos, por que são essenciais; que uma sociedade justa é aquela que resulta do equilíbrio de oportunidades; que a seriedade do Estado, enquanto emanação de uma consciência cívica livremente superior, não se compadece com o laxismo; que uma igualdade de tratamento entre sexos, raças ou etnias, não é uma utopia; que uma economia que conduza ao bem estar efectivo dos seus cidadãos, não se compadece com o consumo das aparências e que um País solidário e um mundo mais humano, só é possível com o nosso contínuo envolvimento.

Afinal, quando contemplamos hoje Portugal e o mundo e comparamos a realidade, com muita da nossa ficção geracional, parece-nos que muita coisa recuou e outras coisas evoluíram, para além do que se poderia ter pensado.

Só algo, (cada vez mais evidente na expressão da minha geração), parece não ter mudado e, curiosamente, é o que de mais antigo foi refinado pela prática da vida. Trata-se do espírito e tenacidade para encarar as adversidades e a vontade de lutar por dias melhores.

Mas será que educámos os nossos descendentes com estas mesmas convicções?

Se calhar não os preparáramos para tal, na esperança de que já não fosse necessário e, agora, com o mundo a girar em sentidos tão diversos e a vida a exigir sacrifícios maiores, corremos o risco de nos sentir culpados e, mais uma vez, chamados a participar na resolução dos problemas que nos afectam.

E nós a pensarmos numa pacífica  reforma!...

 

 

E se pedíssemos perdão?!

Fernando Cruz Gomes

 

Manuela Ferreira Leite. Quando tivermos oportunidade de estar com ela... vamos pedir-lhe desculpa. Perdão mesmo. É que, de facto, nunca fomos muito à bola com a sua figura de mulher austera, que muitos chegaram a apelidar de “dama de ferro”. Em nós nunca ela despertou mais do que... um certo ar de desamor. Perdão, portanto.

E como “só os burros é que não mudam”... nós também mudamos.

De facto, quando, não há muito, a senhora esteve na televisão a conversar com Judite de Sousa, deparámos com alguém superior. Com um ar mais natural do mundo... dissecou todas as coisas que ultimamente afectam o comum dos mortais em Portugal. Com um jeito quase maternal, como dizia, há dias, Vasco da Graça Moura, ela nem se exaltou, apenas dando a ideia de que era uma mestre-escola a explicar um problema de simples aritmética a uma criança. Pondo a nu, afinal, toda a falácia de um Governo – aquele que temos agora – que se compraz em atirar aos ares meia dúzia de macacos que tira de um nariz feio e mais feio parecendo. Um Governo que, pela cabeça do Sócrates da nossa angústia, toma a sério os dislates demagógicos de um Governador do Banco de Portugal, que antes de fazer o estudo encomendado já sabia a resposta a dar.

E a senhora mais não fez do que alinhar números, jogar com cabeça frente aos problemas que já se avolumam mais do que estavam e muito mais se vão avolumar. A senhora não teve mais do que dizer a verdade nua e crua do que sabia e do que sabia... que eles sabiam.

E falou de tudo. Passando pelo défice, pelo aumento dos postos de (pouco) trabalho, das chamadas Scut, do sigilo bancário, de certos equívocos na apreciação de contas, das reformas e das remunerações dos funcionários públicos, das demagogias que têm vindo a ser escalonadas dia após dia. Trapalhadas... muitas trapalhadas. Trapalhadas que dão, desde já, a entender que o nosso primeiro não vai resolver nada. E não vai resolver nada porque se enredou em conversas do fala-só, em questiúnculas que têm a ver com um certo ódio de estimação aos que o antecederam. E, mesmo assim, ainda vai tentando dar uma de nicolau... dizendo que não sabia o que antes afirmava a pés juntos.

Se algum dia estivermos com Manuela Ferreira Leite... vamos, de facto, pedir-lhe perdão pelo mal que dela pensámos. É que ela conseguiu desmontar, uma a uma, as peças de uma máquina que tem muito de artimanha grosseira, de cosmética que já não engana, de erros crassos. Disse, no fundo, com provas – que só não vê quem não quer – que há banha da cobra a mais, vendida por um Governo que tinha tudo para brilhar.

Por agora, vamos assistindo, assim, paulatinamente, e sem nada poder fazer, a palavras de um Governo que, dizendo embora o contrário, está a aumentar a despesa pública, confronta desnecessariamente a sociedade civil e ajuda a desagregar as empresas. Vai ser um fartote. Será que o PS não tinha outra gente? Na gaveta onde o Socialismo entrou, não havia mais ninguém?

E sem saber como nem porquê, aparece-me na mente a história dos três papagaios. Um tipinho entra numa loja de animais para comprar um papagaio. Vendo três juntos, iguais, numa gaiola, indaga o preço. O da esquerda custa 50 euros – diz o dono. Que caro!, protesta o homem. O dono da loja explica que se trata de um papagaio muito especial que até sabe operar um computador. O da direita... vale 100 Euros. Novo espanto e nova explicação. É que o papagaio da direita, além de saber operar um computador, também domina Windows, XP, Unix e Macintosh.

Era preciso saber o preço do papagaio do meio. Esse custa 500 Euros. Era demais. O que é que ele saberá fazer de tão especial para valer esse dinheiro? Perguntava o comprador. A resposta não se fez esperar. Na verdade - diz o dono - nunca vi esse papagaio fazer nada mas os outros dois tratam-no por chefe...


 

 

“Trapalhadas” (agora) com outro nome

Fernando Cruz Gomes

Santana Lopes era primeiro-ministro de Portugal, quando começou a surgir, dos lados da (então) Oposição, o epíteto. Eram “trapalhadas” tudo quanto seria um “lapsus linguae” ou um engano de qualquer dos seus ministros. Trapalhadas. Daquelas que estavam toda a semana na boca do mundo. Trapalhadas que fizeram cair o Governo, com o sopro auxiliar de um Presidente da República que não abre agora a boca quando surgem as mesmas... trabalhadas a que hoje se chamam enganos.

De resto, são tantas as confusões, tantos os enredos e os embustes deste Governo que mais trapalhada ou menos trapalhada.. vai tudo dar ao mesmo.

Agora, foi a ministra da Educação a considerar um “lapso” qualificar a decisão de um tribunal açoriano sobre os serviços mínimos como “um pronunciamento que não é de Lisboa nem respeita à República”. E vai daí insiste em que “os ministros são pessoas normais e cometem lapsos e só são diferentes porque têm mais responsabilidades”. Maria de Lurdes Rodrigues, a autora desta trapalhada, que é apenas mais uma deste Governo, entende ainda que a tal expressão “saiu um pouco atrapalhada”. Bem nos queria parecer!

Se fosse antes... era só trapalhada e caía o carmo e a trindade. Hoje, é pura e simplesmente um engano, um lapso...

Recorde-se que, em declarações a uma estação de televisão – para o caso a SIC - ao ser confrontada com um despacho do Tribunal Administrativo de Ponta Delgada sobre a providência cautelar apresentada por sindicatos, no sentido de evitar os serviços mínimos durante os exames nacionais, aquela sumidade agora arvorada em ministra disse tratar-se de “um pronunciamento sobre um despacho do Governo Regional de um Tribunal dos Açores, que não é de Lisboa nem respeita à República Portuguesa, portanto não respeita ao nosso sistema”.

Quer dizer, a senhora ministra acabou por ofender, e grandemente, os açorianos. Enxovalhou os princípios gerais de uma Nação. Provou que estar na Educação... pode nem sequer significar Cultura. Os Açores, nas suas palavras, passaram a ser tudo menos... Portugal.

Na óptica do ministra, há satisfação “por ter fracassado esta tentativa de pôr em causa o trabalho de todo o ano lectivo”, lamentando ao mesmo tempo “o clima de instabilidade e de ansiedade que afectou os alunos, as famílias e os próprios professores”. Ora bolas! E as suas palavras? A sua diatribe contra os Açores e contra Portugal? Foi só um “lapso”? Salda-se apenas por um “engano”? Não há nada mais?

Maria de Lurdes Rodrigues parece ter provado que é bem mais capaz de ter condições para tudo... menos para ser Ministra da Educação. Se ela, numa primeira análise, entra por aquela vereda de ofender os açorianos. Se entende que a “trapalhada” não é mais do que um “lapso”. Deveria, no mínimo, demitir-se ou ser... demitida. Sobretudo por estar, com a frase e o conceito, a deitar achas para uma fogueira que às vezes ainda arde. Uma fogueira que lembra resquícios de um certo colonialismo que também penalizava os Açores e os Açorianos.

Será que o próprio primeiro-ministro – tão coerente e tão púdico – não terá uma palavra a dizer para este “engano” que antes tinha o nome de “trapalhada”?


 

 

Cunhal. Um homem a que ninguém fica indiferente!

Luis Barreira

 

Faleceu Álvaro Cunhal! Desapareceu último o líder carismático do Partido Comunista Português, o homem que durante dezenas de anos dirigiu grande parte da contestação à ditadura salazarista, o mesmo homem que tão contestado foi, quando já vivia numa sociedade democrática.

Esta aparente contradição e os reflexos que teve na história recente de Portugal, não podem ser indiferentes a ninguém! Aos que dele gostavam e o seguiam, como uma devoção sem limites e aos que o combatiam, com uma ferocidade incontida.

Entretanto, entre uns e outros, havia uma massa de gente para quem também, o Álvaro Cunhal, não era uma sombra parda da sociedade portuguesa. Aqueles que consideravam os seus objectivos expressos como uma esperança para a realização de uma sociedade mais igualitária e que, ao mesmo tempo, abominavam a praxis utilizada pelo Partido Comunista, na concretização da sua política. Também para estes, Cunhal, não era indiferente e também estes olham a história recente da sua acção, com o “arrepio” de experiências passadas e a esperança de novas ideias e de práticas humanizantes.

Mesmo para aqueles que, não viveram ou estudaram, o período histórico imediatamente a seguir ao 25 de Abril de 74, este velho dirigente comunista não pode deixar de ser uma figura marcante no desenrolar dos acontecimentos que conduziram a sociedade portuguesa até aos nossos dias. Alguma influência da sua acção ainda resta nos nossos dias, beneficiando alguns e prejudicando outros mas, para todos, ele foi um dos que fez história.

Amado ou odiado, Cunhal nunca vergou perante as dificuldades que a sociedade portuguesa viria a criar a si próprio e ao seu partido e nunca abdicou dos seus conceitos ideológicos. Como se os anos de cárcere, de dificuldades, de lutas permanentes, dentro e fora do seu partido, o tivessem ensurdecido e cegado, perante a realidade da sociedade portuguesa,  face às profundas mutações deste velho continente e a um mundo cada vez mais afastado dos seus pressupostos teóricos e práticos.

Hesito em dizer se isto merece um elogio ou uma profunda crítica. Talvez o elogio que se faz a uma estátua de pedra, que só a erosão do tempo se encarregará de dissolver, possa caricaturar a figura de Cunhal, ou a crítica inflamada, por contradições de natureza pessoal e/ou política, que tudo mistura sem avaliação. Em qualquer dos casos ninguém deverá escarnecer deste personagem!

Seja o que for, Cunhal faz parte da história de uma País que, nos momentos mais importantes da sua  foi o centro de um enorme debate ideológico, político, económico, cultural e,...talvez, pouco social.

A sua herança ficará selada na memória de um povo, nos seus escritos e pinturas e na história de um partido, que fez à sua imagem.

Seja o que for, que ficar, não poderá nunca ser associado a um simples episódio político, como tantos dos que abundam na história actual da nossa sociedade. E, se muita coisa lhe faltou, para ser um político com ideias ajustadas à realidade que pretendia alterar, uma coisa ficou e que cada vez é mais rara na sociedade política portuguesa: a personalidade e  carisma de homens despretensiosamente entregues às causas porque lutam.


 

 

Saramago recebeu doutoramento “honoris causa” pela Universidade de Alberta

Fernando Cruz Gomes

O escritor José Saramago recebeu, na quarta-feira, dia 8, as insígnias do doutoramento “honoris causa”, em Letras, pela Universidade de Alberta. Na óptica de muitos dos que assistiram foi também uma homenagem a Portugal.

À cerimónia, presenciada por cerca de 1200 estudantes de Direito e Ensino, que terminavam o seu ano académico, assistitam Anne McLelan, vice-primeiro ministro federal, e as mais destacadas entidades do Senado Universitário, encabeçadas pelo presidente da Universidade, Rod Fraser, e pelo chanceler, Eric Newell.

José Saramago, depois das palavras de Rod Fraser, que acentuou “ser a presença do Prémio Nobel uma grande honra que prestigia a Universidade de Alberta”, observou como que a identificar-se que “a não poucos deverá parecer estranho que venha falar destes temas – “Democracia e Universidade”, como chamou à sua conferência – alguém que nunca se sentou nas aulas de uma universidade e que, além do resto, alimenta desde há longos anos inclinações ideológicas e políticas que o tornam, aos olhos dos bem pensantes, em alvo das piores suspeitas”.

A formação como objectivo

Abordou, depois, o que considera mais importante para uma universidade, a “formação”, entendendo que “a universidade terá sempre motivos para pensar que cumpriu o seu papel ao entregar à sociedade jovens preparados para receberem e integrarem no seu acervo de conhecimentos as lições que ainda lhes faltam, isto é, as da experiência, madre de todas as coisas humanas”. Não esqueceu que, às vezes, “o  problema reside no facto de que até agora me limitei a falar da formação necessária ao desempenho de uma profissão, deixando de lado outra formação, a do indivíduo, da pessoa, do cidadão, essa trindade terrestre, três em um corpo só”.

Entre as considerações tecidas lembrou que “uma educação que propugnasse ideias de superioridade racial ou biológica estaria a perverter a própria noção de valor, pondo o negativo no lugar do positivo, substituindo os ideais solidários do respeito humano pela intolerância e pela xenofobia”.

Explica então que com estas palavras pretende chegar à universidade e também à democracia. “À universidade porque ela deverá ser tanto uma instituição dispensadora de conhecimentos como o lugar por excelência da formação do cidadão, da pessoa educada nos valores da solidariedade humana e do respeito pela paz, educada para a liberdade, para a crítica, para o debate responsável das ideias”. No outro pilar da sua dissertação, disse José Saramago que “o que chamamos democracia começa a assemelhar-se tristemente ao pano solene que cobre a urna onde já está apodrecendo o cadáver. Reinventemos, pois, a democracia antes que seja demasiado tarde. E que a universidade nos ajude. Ela pode, vós podeis”.

“Um dos poucos países à moda europeia

Anteriormente, em conversa informal, já Saramago se dissera “feliz” por estar “num dos poucos países à moda europeia”. O cônsul honorário de Portugal em Edmonton, Aurélio Fernandes, que juntamente com o Professor George Lang, foi o responsável pelo “doutotamento”, disse à Lusa que “José Saramago sempre se mostrou simples, afável e simpático”.

Antes da cerimónia do doutoramento, o escritor português e vários dos seus anfitriões estiveram na Rutherford House, uma casa antiga de 1911, em tijolo vermelho, que faz parte do património cultural de Alberta. À tarde, o Reitor da Universidade, Rod Fraser, e sua esposa  Judith Fraser ofeceram uma recepção privada a José Saramago no Timms Centre for the Arts.

Domingo, dia 12, José Saramago estará em Otava, onde proferirá uma conferência em Francês, intitulada  Qui est-ce qui parle quand j’écris, promovida por Ottawa International Writers Festival, na National Archives-National Library of Canada. O Instituto Camões ofereceu uma colecção da sua obra para ser exposta durante a conferência.


 

 

A “reforma” da política ou a reforma dos políticos?

Luis Barreira

 

Tenho a certeza que, durante as próximas semanas, vão chover muitos comentários a propósito do recente “não” francês, à proposta de Constituição Europeia.

Como é importante saber o que pensa o povo europeu, sobre esta decisão do povo francês, aqui fica igualmente a minha opinião.

Em primeiro lugar, os franceses, não disseram “não” à União Europeia, negaram sim um projecto de Constituição da União, cuja discussão pública foi fortemente orientada pela política interna do País e as suas actuais dificuldades, e muito menos no articulado do texto constitucional que se lhes propunha. Desiludam-se, pois, todos aqueles que, em consequência de nacionalismos estreitos, de várias tonalidades, interpretam esta atitude dos franceses como uma rejeição da União Europeia. Desiludam-se, igualmente, todas as cores, ou fracções partidárias, que interpretam o “não” francês como um apoio incondicional às suas teses constitucionais.

Os franceses, não são assim tão diferentes dos outros povos europeus da União, no que diz respeito ao estilo de vida que adoptam e à forma como reagem politicamente. Se a vida corre bem, estão-se um pouco nas “tintas” para as decisões e compromissos internacionais dos seus dirigentes. Se o seu nível de vida é posto em causa, “barafustam” como podem, exprimindo-se em todas as oportunidades. E o referendo foi uma delas!

Mas será que a política europeia, levada a cabo pelas várias instituições europeias e nacionais, não teve nenhuma influência sobre o voto dos franceses? Aí,... eu digo que sim!

Há muito que venho reclamando contra a forma como as élites políticas europeias têm vindo a tratar os assuntos europeus, alguns dos quais da maior importância futura para os milhões de cidadãos, que partilham esta grande “casa” europeia.

De cada vez que a Europa “estremece” com a aproximação de uma crise, alarga-se a União Europeia, mudando o centro de gravidade dos problemas, como se “o salto no “precipício”, fosse a solução mágica para  problemas antigos e sucessivamente adiados.

  sérias dificuldades nas economias dos países da União Europeia e especialmente nas dos que mais têm contribuído para a construção da Europa, como é o caso da França e da Alemanha. É preciso resolvê-los, ou atenuá-los, por duas razões fundamentais: para que os respectivos povos acreditem que a União Europeia lhes proporciona bem estar e para que as economias desses países possam gerar os tão necessários fundos de auxílio aos novos países, que agora entram na União.

Há problemas cada vez maiores de comunicação, entre os decisores políticos europeus e os povos que representam. Não basta dizer e decidir que “prá frente é que é caminho” se no decurso da viagem tropeçamos em “buracos” cada vez mais fundos, que não são “tapados” convenientemente, fazendo-nos sentir espectadores de um processo que altera profundamente a vida dos povos, sem que esses mesmos povos tenham consciência plena das consequências do seu envolvimento.

Alarga-se a geografia mercantil da Europa, sem que se tenha uma especial atenção aos seus cidadãos e à sua sensibilização para um  projecto europeu comum e depois admiramo-nos que o resultado de uma consulta democrática, ponha em causa os juízos pré-concebidos dos dirigentes políticos!...

Vão seguir-se outros referendos com o mesmo propósito e, eventualmente, a resposta de outros povos irá no mesmo sentido.

Se tal acontecer, espero que alguém não se lembre de afirmar que a União Europeia está a ser posta em causa pela prática democrática dos seus povos!...

Se tal acontecer e o que verdadeiramente isso pode representar, é a necessidade de modificar a prática política dos seus dirigentes, ou seja, reformar a forma como estão na política, antes que os povos tomem a decisão de os reformar.


 

 

A União para a paz

Luis Barreira

A recente evocação do 60° Aniversário do fim da  Segunda Guerra Mundial, associado ao dia da Europa, que foi um dos grandes palcos da guerra , opondo os aliados às potências do Eixo: Alemanha, Japão e Itália, merece alguma reflexão.

Não gostaria de falar sobre os “resquícios” daquele enorme conflito, que ainda hoje alguns teimam em utilizar como arma de arremesso político, quando lhes convém, ou como justificativo de outras barbaridades, sempre que cometem actos mundialmente condenáveis. Não gostaria de aqui recordar, mas é conveniente não esquecer!

Na minha opinião, o importante a recordar, nos dias de hoje e se tivermos em consideração Europa que estamos a construir é, por um lado, o sofrimento e a morte causadas a milhões de seres humanos, tivessem sido eles judeus, minorias étnicas, russos, americanos ou alemães. E nesse aspecto e à luz da nossa sensibilidade actual, tal catástrofe humana deve ser evitada a todo o custo e banida dos propósitos de qualquer líder sanguinário.

Por outro lado, a evocação do Dia da Europa, num contexto particularmente pacífico, em que se encontra este velho continente, há cerca de 60 anos, após séculos de hostilidades, guerras sangrentas e disputas permanentes, é algo que, enquanto for viva a memória da Segunda Grande Guerra, nos faz meditar no quanto de positivo, para os nossos povos, teve a construção do Mercado Comum e, agora, o da União Europeia.

E porque nos é tão cara, do ponto de vista económico e social, esta construção continental europeia, com todas as suas variantes políticas nacionais e comunitárias, devemos reflectir sobre o futuro desta arquitectura, olhando os problemas do presente, à luz das velhas aspirações do seu passado, que teve, em Robert Schuman, um dos seus grandes mentores.

De facto, se a Europa começou por ser o grande mercado de circulação de pessoas e bens, procurando que os benefícios dessa circulação fossem redistribuídos pelos povos que nela participavam, a Europa de que hoje falamos, com um sem número de instituições autónomas e aspirando a uma Constituição comum, já não é só a Europa das mercadorias, é o igualmente dos seus povos, de cada um dos seus seres humanos, que se sentem europeus por direito e por pertença a um projecto comum de vida.

E a ser assim e porque habitamos a mesma “casa europeia”, gostaríamos todos de saber o que tem sido feito para conhecermos todos os inquilinos?! Que esforços têm sido realizados para dar às novas gerações (para já não falar das pessoas de meia idade), um conhecimento mínimo da diversidade cultural, histórica, económica, linguística, etc, destes milhões de habitantes que se agrupam sobre o mesmo “chapéu” da União Europeia? Que trabalho tem sido realizado pelas instituições europeias para encurtar a ignorância mútua entre lituanos e portugueses, entre eslovacos e irlandeses, ou entre gregos e finlandeses, para só falar destes?

Cada um dos países, que actualmente compõem a União Europeia, teve uma história marcada por séculos de atribulados acontecimentos, que marcaram os povos desta grande região do planeta e que ainda hoje são responsáveis por muitas das suas atitudes, incompreensíveis aos nossos olhos. A única forma de evitar conflitos, como foi o da Segunda Guerra Mundial, é proporcionar um conhecimento mútuo entre os povos e estabelecer uma escala de valores comuns, a que todos se sentem ligados.

Sermos apenas produtores de bens e consumidores dos mesmos produtos, não é condição segura para a paz. Isso já o éramos, embora em menor escala, antes e durante os conflitos, que aconteciam em grande parte, em consequência da disputa de mercados ou de matérias primas.

A paz e a prosperidade, que a União Europeia deverá proporcionar, tem que assentar em bases mais sólidas do que as que resultam da simples transacção de mercadorias.

Estamos a falar de gente, de pessoas que podem amar-se, detestar-se ou ignorar-se! E não consta que esta última atitude seja sinónimo da tranquilidade essencial a uma paz duradoura.


 

 

O “Zé” de Portugal ainda mexe...

Fernando Cruz Gomes

“Zé”. Chama-se “Zé”, simplesmente “Zé”. Na Europa das várias velocidades, reside e trabalha agora num dos cantos das coisas finas. Onde os narizes dos mortais só o são verdadeiramente se forem arrebitados. Assim a modos como se fossem mais importantes. Vive e trabalha na Europa dos “As”. Naquela Europa onde só se conhecem como válidas as pessoas... que sacrifiquem à Libra mesmo que tudo à sua volta já navegue em Euros. Onde quem não for “very... very british” é oriundo de um país do Terceiro Mundo.

O Zé – o nosso Zé – teve a ousadia de falar no mesmo tom que os demais. Trabalhando com afinco, conseguiu pequenas maravilhas. E foi galgando espaços e atingindo os céus da profissão que escolheu. Profissão onde, naturalmente, face à dor que alguns têm no respectivo cotovelo... há inimigos a mais. Para dar e vender. Daqueles que, vermelhuscos e façanhudos, especialmente depois das libações de uma “beer... very british”, arrotam postas de pescada e se julgam deuses entre os mortais. Inimigos que não perdoam ao “Zé” jogar o jogo da verdade e da qualidade... melhor que os “pais da Pátria” e de muitas coisas mais...

A fama do “Zé” cresceu. Entrou de rompante em locais onde nunca os outros tinham entrado. Virou celebridade. Ao mesmo tempo que os tais donos da terra... se roíam de inveja. E insistiam nos dichotes em que importavam o nosso “Zé” do tal Terceiro Mundo.

Como a fama tem a perna longa e anda depressa, especialmente em tempos de “Santa Electrónica”, o “Zé” começou a ser falado. A sua fama foi badalada em todo o mundo. E até já o levaram a Israel, a servir de emblema para a Paz. E como a fama corre depressa... também chegou às comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Entrou também nas comunidades, também elas oriundas de Portugal. Comunidades boas – boas mesmo, acreditem – mas onde às vezes prolifera um defeito que vem dos séculos e que nem os séculos vão banir. Há nas comunidades portuguesas no estrangeiro – tal como em Lisboa e na Malveira, em Ponta Delgada e no Funchal – um monte de omniscientes. Daqueles que sabem de tudo. Daqueles que são cientistas e políticos, treinadores e jornalistas, médicos e... loucos. São tudo porque são “omniscientes”.

Para além disso, e contrariamente ao que muitos acreditam, o desporto predilecto de muita da nossa gente é, ao invés do futebol, o “tiro ao alvo”, para partir as pernas do que vai à frente.

Quando o Zé, há dias, já depois de ter vencido barreiras mil e levado ao mais alto pedestal, perdeu uma... oportunidade... aí apareceram as doutas opiniões. Em tudo o que era lugar e buraco (talvez naquele até onde as costas mudam de nome...) E vá de zurzir o bom do Zé com os epítetos mais finos da omnisciência bacoca e saloia. O Zé... não sabia o que estava a fazer... era assim a modos que um aprendiz... era, pelo menos, arrogante. O Zé era, de facto, uma imitação.

Os omniscientes de uma comunidade como a nossa atiraram-se ao Zé como gato a bofe. Mimosearam-no – de longe, claro – com nomes soezes e de uma forma geral usados pela escumalha que há em todas as comunidades. Em toda a parte. Mesmo em programas radiofónicos e em coisas que parecem Jornais. O Zé merece, pelo menos, ser crucificado! Cometeu o crime de “ser bom” e de levantar bem alto o nome do País onde nasceu.

É evidente que José Mourinho – e é dele que estamos a falar – está a marimbar-se para as doutas opiniões dos... doutos omniscientes desta terra onde vamos deixando os ossos. Só que, de facto, vem ao de cima a frase-conceito que muitas vezes ouvimos. Diz-se muitas vezes, por cá, que os Portugueses não precisam de ter inimigos entre os outros componentes deste chamado “mosaico cultural”. E não precisam porque, de facto, eles são inimigos uns dos outros...


 

 

A Europa e arredores

Vem aí o dragão chinês

Comunidade desunida jamais será ouvida

 Antonio Cardoso

A Europa e arredores

Alguns dos que só olham para o seu próprio umbigo estavam provavelmente convencidos que as fronteiras da Europa tinham sido criadas a leste da França, da Alemanha ou da Itália. A oeste nada a temer com o Atlântico, desde que se aceitara a entrada de Espanha e de Portugal. Sabiam que existiam outros membros, uns países nórdicos, ricos, mas que não chateavam ninguém nem forneciam mão-de-obra para tirar o emprego aos “verdadeiros” europeus.

Desde o último alargamento aos países de leste, os tais cépticos olham para esta nova Europa com desconfiança acentuada e já se manifestam contra tudo o que dela vem. Como se não bastasse, anunciaram-se as possíveis adesões em 2007 da Roménia e da Bulgária, analisam-se a entradas da Croácia, do que resta da ex-Jusgoslávia e da Turquia, tudo países pobres.

Só faltavam uns políticos de má fé, a directiva Bolkestein e alguns pedreiros e canalizadores polacos para justificar os argumentos de quem vai votar contra a Constituição Europeia no referendo de 29 de Maio.

É verdade que é muito mais fácil culpar os outros das nossas próprias deficiências.

 

Vem aí o dragão chinês!

Cerca de 150 mil, é o número de portugueses que vão perder o emprego na área do têxtil. Treze países da UE, incluindo Portugal, a Espanha e a França intimaram o comissário europeu do Comércio, Peter Mandelson, a agir rapidamente contra as entradas de têxtil chinês na UE.

Estes países exigem, entre outras medidas, a limitação de importações de vinte produtos com vista a protegerem o emprego no sector. O Reino Unido e os países nórdicos discordam destas medidas de “proteccionismo” alegando que os outros também tiveram tempo para se adaptar às novas regras, desde a adesão da China à Organização Mundial do Comércio (OMC).

Posição idêntica defende também a China que se manifestou com a “maior firmeza contra toda e qualquer limitação” das suas exportações, atribuindo a culpa desta situação à má preparação de “alguns países europeus”.

Nunca compreendi como desejaria a forma de pensar dos chineses, mas desta vez acho que têm razão.

 

Comunidade desunida jamais será ouvida

Festejei os trinta e um anos da Revolução dos Cravos em Fontenay sous Bois, (arredores de Paris) na praça da Amizade entre os Povos, frente ao monumento dedicado ao 25 de Abril.

Convidado pela  Association Récréative et Culturelle Portugaise (ARCP), participei no desfile com archotes e bombos, ouvi em sentido os hinos português e francês desafinadíssimos, cantares revolucionários vulgarizados pelo Zeca Afonso e o Léo Férré, entre outros. Apreciei os discursos inflamados com cravos nas lapelas, do Sénateur-Maire Jean-François Voguet, do meu amigo Batista de Matos, presidente da associação e outro mais comedido do jovem e novo cônsul de Nogent-sur-Marne. Estranhei que a palavra não fosse dada ao deputado Carlos Gonçalves, mas existem certamente razões que a razão por vezes desconhece.

A festa continuou na fabulosa sede da associação em Fontenay. Regressei a casa contente por ter visto tantos portugueses festejar a liberdade e triste por ter presenciado uma campanha contra a Constituição Europeia.

No automóvel, dei por mim a cantar: “comunidade desunida, jamais será ouvida...”

 

 

Os injustiçados de Abril

Luis Barreira

Celebrámos recentemente o trigésimo primeiro aniversário do 25 de Abril de 74. Digo celebrámos na medida em que, à parte alguns saudosistas do antigo regime (muitos deles sem saber objectivamente porque é que o são...) e alguns bafejados pelo azar da vida, (julgando que a ditadura os poderia ter protegido), a esmagadora maioria do povo português, dentro e fora das suas fronteiras, festejou este dia simbólico, que marcou profundamente a história moderna de Portugal.

Para a geração que à data ainda não tinha nascido ou que, embora já o tivesse, ainda não compreendia o significado das transformações que se estavam a operar no país, a existência de uma ditadura, com todas as suas formas de perseguição, censura, medo, de isolamento do país, de todo o género de proibições sujeitas a severos castigos, que iam da simples e ridícula  licença de utilização de um isqueiro a uma difícil autorização para ir a Badajoz comprar caramelos. Essa geração do pós-25 de Abril, agora já próxima dos 40 anos, deve sentir que tudo isso faz parte de um passado longínquo, que alguns “velhos” querem, teimosamente, continuar a lembrar.

Mas, a geração activa do 25 de Abril de 74, aqueles homens e mulheres que assistiram e participaram na tremenda reviravolta das mentalidades e comportamentos sociais, culturais, políticos e económicos do País, ainda cá está. Mais não seja para lembrar aos vindouros que, o passado, afinal, ainda está muito perto de nós!

Esse passado que incluía o drama de milhares de homens, quando arrancados às suas origens, famílias e lares, eram armazenados em porões de navios (aos milhares e sem as mínimas condições de salubridade) e despejados a muitos milhares de quilómetros de distância, em terras que não imaginavam, em guerras que sentiam não serem suas e tantas vezes mal aceites pelos colonos que, pretensamente, iriam defender.

Esse drama de milhares e milhares de jovens, que pisavam cautelosamente aquelas terras quentes, com medo das minas, que escondiam a cabeça atrás dos ebondeiros, com medo dos tiros, que viajavam em cima de sacos de areia e dormiam em abrigos cavados na terra, com medo das minas anti-carro ou dos morteiros. Esse medo, não por cobardia, mas por um profundo sentimento de serem vítimas de um regime despótico, que não lhes dava alternativa, nem conseguia justificar a razão e a justeza de um conflito fora do seu tempo. Esse medo,...transformado tantas vezes em morte, em membros despedaçados, em corpos inertes, em graves problemas psicológicos, em sofrimentos atrozes desses actores de um filme, para o qual não tinham sido convidados, é hoje, ainda,... a maior injustiça não resolvida pelo 25 de Abril.

Encontraram-se subsídios e empregos para os colonos regressados do antigo Ultramar!

Pagaram-se indemnizações aos banqueiros que ficaram sem os bancos, aos empresários que perderam as suas fábricas e aos latifundiários que viram as suas terras ocupadas!

Pagaram-se viagens de expulsão aos grandes esbirros do poder ditatorial, investiu-se na integração dos pides, legionários, censores, guardas republicanos, bufos e outros apaniguados do regime!

Há dinheiro para manter um exército de profissionais, acima das capacidades e necessidades de um país, agora defendido por um forte conjunto de alianças e numa situação geo-estratégica que, do ponto de vista militar, nada tem a ver com o mundo de há trinta anos!

No entanto, o Estado português, continua a não querer aceitar assumir completamente a injustiça de que hoje, tal como ontem, foram vítimas os ex-militares. Esses milhares de homens, forçados a defender o próprio Estado durante alguns anos da sua juventude, a abandonar os seus empregos que, tantas vezes, e em virtude da precariedade do trabalho, não permitiu a sua posterior reintegração. Esses homens que, com farda ou sem ela, tanto contribuíram com a sua generosidade para o sucesso da democracia em Portugal. Pois bem, esses portugueses, que já estão reformados ou muito próximos desta situação, ainda não viram o Estado português considerar o seu tempo de serviço militar obrigatório, para efeitos de reforma.

O 25 de Abril deve-lhes isso! Por isso, e mesmo que seja só por isso, vale a pena recordar os ideais de Abril.

 

A RTPi da nossa angústia

Quem tem um Jornal das Comunidades… tem tudo!

Fernando Cruz Gomes

É uma alegria. Quem tem um Jornal das Comunidades assim… tem de facto tudo para achar que vale a pena esquecer a RTPi da nossa angústia. A verdade é que é assim a modos que uma mexerufada de coisas ditas e reditas, um lençol de frases feitas, uma salada russa quase sem nexo, uma “rebaldaria” em que vale tudo para encher aquele tempo de pasmaceira. É um ver se te avias…

 

No último, começámos por ouvir a “menina-pivot” – sabemos que não é assim que se chama, claro – a debitar umas quantas coisas a respeito da menina que perdeu a vida no terrível incêndio. Mas fê-lo como se estivesse a dar uma notícia, esquecendo-se que há uma forma de fazer notícias para o imediato, para a linha das agências e para o segmento do telejornal (diário) e outra, totalmente diferente, para os programas semanais ou de referência. Esqueceu-se, pronto.

 

A seguir veio o Sindicato dos Trabalhadores Consulares, pela voz e mão do sr. Veludo… que aveludadamente foi dizendo da sua (in)justiça a respeito de uma questiúncula que há lá pelas bandas de Londres. Tempo a mais para uma coisa que, trabalhada como o foi, tem pouco a ver com as comunidades.

 

Claro que, até ali, era só a Europa a funcionar. A exemplo do que é habitual naquela que se chama eufemisticamente a RTPinternacional, mas de internacional bastas vezes tem apenas a componente europeia. E mais Europa ficou quando deu voz e... vez a uns “meninos prodígios” que andam pela França na Comunicação Social francesa a fazer coisas de truz. E trouxeram à liça uma Karine Lima e um Paul Moreira. Uma e outro a dizerem das suas. E a cantar loas à sua forma de actuar. Daí não viria mal ao mundo... se nos lembrássemos de ter visto idêntico critério – naquele inefável Jornal das Comunidades – em relação aos muitos “prodígios” que há pelos Estados Unidos e pelo Canadá, pela Venezuela e pelo Brasil. Mas isso não, que fica muito longe! A distância é capaz de não ser coisa de somenos, mas, de facto, por lá, mesmo em Paris... quem estas linhas escreve poderá dar ideias acerca de vários outros colegas – e de peso no mundo da Informação – a trabalharem em orgãos de Informação “nossos”. E que poderiam dar ao tal Jornal... o verdadeiro prisma das comunidades.

 

Por falar em comunidades... falou-se outra vez – com lágrimas à mistura – nos bairros da lata dos anos 60 e 70, em... Paris (onde é que poderia ser?!) E abordou-se a problemática de uma família pobre... que veio pobre... que viveu pobre... e é agora rica (pelo menos em matéria de dinheiro).

 

Um Jornal das Comunidades assim... não dá para ver! Desligámos o aparelhómetro e fomos deixar que um café bem quente nos acordasse para a realidade. Uma realidade das coisas que fazem que andam... sem andarem. Como é o caso dos muitos “Contacto” que a RTP vai tendo. E que seria para forçar à triangulação da Informação. Só que serve apenas para nos sensibilizarmos uns aos outros. Paris vai sabendo o que se passa na África do Sul, o Canadá nos Estados Unidos, Macau saberá o que se passa sabemos lá onde. Mas... Lisboa continua a olhar para o seu próprio umbigo. Sem enxergar o tal “Contacto”. E a pensar, paulatinamente, que Portugueses são apenas... os 10 milhões que vivem nas fronteiras portuguesas. Não contabiliza os quase 5 milhões de Portugueses e luso-descendentes que vivem no mundo. Não contabiliza porque vale a pena sonhar... que emigrantes são só os de i...  já que os outros é até bom que desamparem a loja.

 

O outro Governo dizia que Portugal era cada vez menos o rectângulo dos 10 milhões... para ser também os 5 milhões de fora. Só o dizia? É evidente que sim. Este Governo ainda não disse nada a esse respeito. Pelo menos a avaliar pelos discursos que já ouvimos das excelências  todas que tomaram posse...

 

A RTPi da nossa angústia... vai de mal a pior!

 

Assembleia Regional dos Açores continua “coxa”

Amor com amor se paga…

Fernando Cruz Gomes

Zangados. Abertamente zangados. Ainda somos daqueles que acreditamos, vez por outra, nas promessas dos políticos. Achamos que aquilo que se diz, em matérias que têm a ver com o todo geral de um País é… mesmo para valer. A não ser, evidentemente, que nos dêem uma explicação convincente. E até à data ninguém nos explicou porque é os açorianos residentes fora das fronteiras das ilhas – e são numericamente mais do que os que vivem lá… - não vão votar para as respectivas Assembleias Regionais.

Uma qualidade intrínseca ao povo açoriano, mesmo àquele que vive na diáspora, é o apego à tradição, pugnando por que usos e costumes daquele Povo das 9 ilhas se transplante para o local para onde se vai. Acontece isso nos Estados Unidos e nas Bermudas, no Brasil e na África do Sul. Acontece isso, naturalmente, também no Canadá. E neste País talvez até com mais razão de ser, já que são mais os açorianos que por cá vivem - fungando saudades - do que os residentes nas 9 ilhas.

 

Tudo visto, os Açores perderam agora – estão a perder – uma soberana oportunidade de “estender os braços” a quantos, na diáspora, continuam a entender a regionalização como algo que importa preservar. E a quererem ser Portugueses (e neste caso Açorianos, claro) de corpo inteiro. Bastaria, para o efeito, que se cumprisse o que nós próprios ouvimos a altas figuras dos dois maiores Partido. PS e PSD, à compita, afirmavam que desejavam criar um círculo eleitoral para os açorianos que residem no estrangeiro.

 

Disseram-no, designadamente, Carlos Ávila, então director-geral do PS Açores, e Victor Cruz, líder regional social-democrata açoriano. Disseram-no em Toronto, Canadá, não em termos de campanha eleitoral – onde, por norma, vale tudo… - mas em reuniões separadas das comunidades. E ninguém precisou de lhes fazer a pergunta ou de dar a sugestão. Um e outro, por sua alta recriação, afirmaram, alto e bom som, que “dar voz” aos açorianos da diáspora era uma das prioridades.

Com palavras espalhadas por toda a parte, primeiro Vítor Cruz, presidente do PSD Açores, e depois, Carlos Ávila, na sua condição de director-geral do PS Açores, disseram a quem estas linhas traça que era quase “dogma de fé”, no melhor sentido do termo, fazer com que na revisão da Constituição Portuguesa, ficasse consignada a criação de círculos para os açorianos e madeirenses residentes no exterior no que toca às eleições regionais.

Foram promessas… que não passaram disso mesmo.

Agora, na revisão do sistema eleitoral por que se vai reger a Região, ambos os Partidos se esqueceram da diáspora. Acharam preferível ignorar o que, quando adregam de passar por cá, todos dizem querer. E quando assim é… ninguém pode levar a mal que os que vivem no estrangeiro se comecem a esquecer dos que vivem por lá.

 

Para já, sabe-se que uma delegação do parlamento dos Açores entregou na Assembleia da República o projecto de revisão do sistema eleitoral aprovado pela maioria regional PS. A proposta de lei agora aprovada aumenta de 52 para 57 o número de deputados regionais. É uma espécie de círculo eleitoral de compensação, que se juntam aos 9 já existentes. A razão principal, pelo menos a que foi alegada, é a de que se pretende melhorar a proporcionalidade do sistema, evitando que a força política mais votada em eleições para o parlamento açoriano não obtivesse, porém, o maior número de mandatos. Apetece coçar no nariz, à boa moda de Herman José… porque chega a dar a entender que não é isso, não.

 

De qualquer maneira, perdeu-se uma oportunidade soberana para “unir” mais os açorianos a viverem nas 9 ilhas e aqueles – em muito maior número – que vivem no estrangeiro, designadamente no Canadá e Estados Unidos.

 

Admiram-se, depois, que os chamados emigrantes se vão “diluindo” nos países onde residem e mandem às malvas a saudade que ainda têm... É que amor com amor se paga!

 

 

 

Os “fundamentalistas” católicos!

 Luis Barreira

Um destes dias, num programa radiofónico da Rádio Latina no Luxemburgo, onde se pedia a opinião dos ouvintes sobre a personalidade e obra de João Paulo II, a opinião de um ouvinte deixou-me perplexo.

Interrogado sobre os aspectos mais conservadores e mais evolutivos, do período em que este Papa esteve à frente dos destinos da Igreja Católica, o ouvinte em questão, reafirmando o total apoio ao Papa agora desaparecido, fez questão em sublinhar o seu total repúdio pelos “ps....” (que deseducadamente não soube ou não quis designar como homossexuais), transmitindo a opinião que o Papa faz muito bem em não  aceitar a sua existência e que todos os homossexuais deveriam ser mortos,.. liquidados!

Com toda a franqueza, já pouco me importa os palavrões utilizados pelo ouvinte, para apelidar os homossexuais. Também, e a avaliar pela ignorância e maldade que grassa no mundo, pouco me importa a opinião deste senhor sobre o referido assunto. O que para mim é importante é que, eventualmente, outras pessoas possam pensar o mesmo, após terem ouvido tais disparates. O que mais me afectou é pensar que, de algum modo, as mensagens de João Paulo II, possam ter causado tão pernicioso efeito nas consciências de alguns crentes. E isso sim, é preciso desmistificar!

É verdade que o falecido Karol Józef Wojtyla, numa eventual contradição entre as suas atitudes verdadeiramente inovadoras: em favor da paz no mundo, da aproximação entre as várias religiões monotaeístas, do perdão pelos pecados cometidos em nome da Igreja e da grande aproximação humanista para com todos os seres humanos, independentemente da sua natureza ou fé confessional, assumiu uma postura conservadora em relação a muitos dos aspectos da vida da igreja e da moral social. Mas, sem que queira justificar as eventuais dissonâncias do legado de João Paulo II, a minha opinião é a de que, estas possíveis discrepâncias, entre um papado da actualidade, coexistindo com uma moral preconceituosa, tinham um fio condutor no pensamento do falecido Papa, ou seja, a defesa da vida humana, na óptica da Igreja.

Nunca o Papa desejou ver liquidados os homossexuais! Afirmar isto é uma aberração levada à extremidade da condição humana.

Os homossexuais, homens ou mulheres, não são produto de uma degenerescência social, de um vírus maligno ou portadores de alguma doença epidémica e mesmo que o fossem, deveriam ser tratados como seres iguais a todos os outros, com a compreensão e o respeito que todos os homens e mulheres devem merecer.

Ser homossexual só significa ter uma atitude, em relação ao sexo, diferente daquela que é mais vulgar, mas dessa diferença não advém nenhum mal à sociedade em geral.

Um ou uma homossexual, ama, sonha, trabalha, chora e ri, como qualquer outra pessoa e deseja estar integrado na sociedade, como qualquer outro ser humano.

Todos nós, homens ou mulheres, na nossa constituição genética, contemos elementos do sexo oposto, em menor ou maior quantidade e isso não é obra do diabo. Somos assim, cientificamente concebidos e não querer entendê-lo só pode ser consequência da ignorância, de uma deseducação assente em preconceitos estúpidos, ou por pura maldade.

Para o ouvinte que emitiu a opinião citada e para todos os católicos que, no Luxemburgo ou em qualquer parte do mundo, querem posicionar-se em torno dos valores defendidos pela sua Igreja, aconselho a leitura das teses do Jubileu do ano 2000.

No caso concreto da Arquidiocese do Luxemburgo, num documento de 7 de Março de 2000, no seu artigo 4, na pg. 5, dizem nomeadamente sobre este assunto: “No domínio da moral sexual, o comportamento da Igreja e dos seus representantes, face às pessoas homossexuais, merece ser considerado à parte: a Igreja e os cristãos têm hoje um sentimento profundo, olhando a homossexualidade de maneira muito diferente. Nessa apreciação, é preciso partir do facto de que os homossexuais não escolheram o seu destino (...) e que uma alteração da sua tendência é julgada impossível, por uma grande parte das comunidade científica.”

Face a isto, defender a aniquilação dos homossexuais não é ser “mais papista do que o Papa”, é, pura e simplesmente, ser contra o Papa!

 

Será coragem ou demagogia?

Fernando Cruz Gomes

O governo de José Sócrates está a andar. A todo o vapor, como dizem alguns. Todas as semanas, há medidas a serem anunciadas. E a dizer ao povo que, agora, sim, é para valer. Com uma maioria que se espera consistente, só não governa bem... se não quiser. Das propostas quase todas têm como meta entrarem no coração do povo. Ou melhor, dar ao povo... o que o povo precisa.

Será coragem? Será demagogia?

No fundo, para quem tem uma maioria tão coerente na Assembleia da República, atirar-se ao “lobby” das farmácias, não é mais do que dizer ao Povo que vai ter Governo. E governo que quer mesmo governar. Idem para as alterações nas férias judiciais. Uma e outra das iniciativas que nem parecem demasiadamente corajosas... vieram dizer que “temos Governo”. Sobretudo porque, de há muito, se barafustava pelo facto de se ter de ir sempre à farmácia mesmo para um medicamento para os calos. E que falar em casos “urgentes” nos Tribunais teria de ser antes (ou depois, claro) das férias judiciais.
Vem agora, também, já agora, a ideia de criar concursos públicos para cargos directivos da Administração Pública. A exemplo do que acontece na maior parte dos países a sério. Onde a actividade pública prossegue em boa ordem... mesmo que, porventura, não haja Governo.

Como as medidas propostas estão a andar à média de uma por semana... entendemos que é bem capaz de ser necessário refrear os ânimos. Fazer com que se ande em frente, sim... mas mais devagar.

Alguém nos lembrava, há dias, a história do sapo de Einstein. Diziam-nos que, se alguém pusesse um sapo numa panela com água e fosse aumentando a temperatura, devagar... devagarinho, o sapo acabava por se ir habituando e morria cozido.  De outra maneira, se se colocar o sapo numa panela com água quente, ele mesmo percebe imediatamente o choque da temperatura e salta cá para fora.

Andar tão depressa assim... pode parecer que Portugal está a passar pelo processo da fervura do sapo. De repente, tudo em água quente, não dá. Para que as asneiras que outros fizeram... sejam eliminadas, será melhor começar com “água fria” e ir aumentando o calor. Os problemas em presença (as tais asneiras)... são bem capazes de morrer.

Coragem? Demagogia? O tempo vai dizê-lo em breve.

 

Viva o optimismo!

Luis Barreira

Uma curta visita a Portugal deu para entender que as coisas não vão bem, mas a esperança é grande!

O pessimismo da generalidade das  pessoas, a braços com o desemprego, a precariedade do emprego e a febre do consumo, perante uma carteira sem “sumo”, tem vindo a conduzir a população citadina do País a uma encruzilhada de opções: ou se finge que tudo não passa de uma situação passageira e haja governo que resolva a situação, no espaço e no tempo que permitam a reposição do crédito pessoal, ou se volte aos velhos e económicos tempos de passeios e pique-niques na praia e no campo, concluídos com uma visita turística a um dos muitos centros comerciais, para comer um gelado com a pequenada.

Nos meios rurais, agora também a braços com uma seca prolongada que tem afectado o gado e as sementeiras, ou se é um grande proprietário, possuidor de um bom “pé de meia”, para fazer face às vicissitudes, ou se volta a trabalhar à “jorna”, para se conseguir sobreviver.

No entanto, a grande maioria do povo português é de uma “carolice” a toda a prova!

Ao mudarem radicalmente o governo do País,( mesmo que este partido no governo tenha sido dos mais comedidos a fazer promessas), eis que os múltiplos institutos de sondagens passaram a registar um clima de grande optimismo entre os agentes sociais. Como se o simples acto de votar, na mudança da direcção governativa fosse, por si só, um remédio miraculoso que tudo vai curar instantaneamente.

Se várias vezes me tenho interrogado sobre a validade e os objectivos de tantas sondagens sobre os níveis de confiança dos portugueses, confirmei agora a razão de tais estatísticas. Os restaurantes, as lojas de trapos e quinquilharias, as lojas comerciais de marca, multimédia, telemóveis, artigos para a casa, etc, exibem, com orgulho, os seus novos preços. Só que, para espanto meu, são idênticos ou superiores aos praticados no Luxemburgo, onde se ganha muito mais.

De facto, os comerciantes, estão bastante optimistas, nem que seja a venderem sapatos a prestações!

Depois,... se durante as férias da Páscoa: os voos para o Brasil se esgotaram, se os hotéis no Algarve se encheram de turistas portugueses e, em todas as direcções, as estradas se encheram de veículos, mau grado as reclamações permanentes de falta de dinheiro, gasolina e portagens muito caras e carros a preços proibitivos, começo a pensar que, de facto, o optimismo dos portugueses é o elemento fundamental na recuperação do seu poder de compra!...

De que vale andar aborrecido a pensar na prestação da casa, do carro, da mercearia, dos impostos, da loja da madame “Francisca”, das facturas dos Visas, Mastercards, Eurocards e outros tantos cartões de plástico? Isso não resolve nada?!

De que vale o sacrifício de passar uns dias na Gafanha da Nazaré, na Costa da Caparica ou nas matas do Gerês? O ano passado foi-se a Cuba, este ano tem de ser o Brasil!? Baixar o status é que nunca! O que é que diriam os vizinhos????

Há problemas? Há sim senhor! Mas isso o governo que resolva! E,... ou ele aumenta o nível de vida ou a gente mete lá outro (...).

Bem,...embora simplista, esta minha análise não deixa de ser o resultado de uma sucinta observação, o meu receio é que, o velho general romano, que invadiu a península antes da nacionalidade, tenha tido razão quando comentava, num relatório enviado ao Imperador: “...este povo até é simpático, mas não se governa, nem se deixa governar”!

 

Terroristas e... terrorismos

Fernando Cruz Gomes

 

Quando, em 15 de Março de 1961 - há que tempos isso lá vai! - deparámos com toda a tragédia do norte de Angola, aprendemos, então, uma palavra nova: terroristas. Eram terroristas os que faziam tudo aquilo. Os que matavam indescriminadamente. Os que violavam. Os que abriam meninas desde as partes baixas até à boca. Nós vimos tudo isso. Ninguém nos contou. Não lemos em livros. Vimos.

 

Os poderes instituídos de então chamavam àqueles homens que iniciavam a tal “luta” terroristas. O terrorismo começava, então, para nós, a ser algo hediondo. Avassaladoramente hediondo. Os poderes instituídos de então responderam ao terrorismo... com uma luta sem tréguas nem barreiras. A que se chamou, também, terrorismo.

 

Aos poucos, porém, vimos outras formas de terrorismo. Aprendemos à força... a entender outros terrorismos. E a isso nem escapou uma “reciclagem” que fizemos à imagem que tínhamos acerca da primeira bomba atómica - a arma-“mãe” de todas as armas de destruição maciça - que fizeram deflagrar por sobre Hiroshima e Nagasaky.

 

O terrorismo continuou a ser algo de hediondo. Avassaladoramente hediondo. Mas... ganhou contornos diferentes. E teve “faces” também diferentes. Até porque os terroristas de então - 15 de Março de 1961 e outras datas que se lhe seguiram - são hoje os “senhores todo poderosos” daquele País que (ainda) amamos. Sentam-se em cadeiras de deputados. Sobraçam pastas ministeriais. Atiraram-se para as escadas do Poder máximo.

 

A “reciclagem” que fizemos ao conceito de terrorismo continuou. E mesmo hoje, que há outros ismos cada vez mais poderosos... ainda nos interrogamos sobre o que é ser terrorista.

 

Há dias, a Imprensa atirou-nos para a mente com uma frase que não deixa de nos matraquear o pensamento. O senador norte-americano Robert Byrd escreveu: “Hoje choro pelo meu país. Depois da guerra temos de reconstruir mais do que o Iraque. Temos de reconstruir a imagem da América um pouco por todo o mundo”.

 

Reconstruir a imagem da América? - O que temos, de facto, é de reconstruir a palavra e o conceito de terrorista. Se o fizermos a tempo... ainda somos capazes de evitar que um pensador espanhol de que nos não lembramos o nome tenha razão quando diz não saber ao certo como iria ser a terceira guerra mundial. Sabia, isso sim, como seria a quarta guerra mundial. E essa, na sua óptica, seria... a paus e pedras, porque a terceira acabaria com tudo.

 

O conceito de terrorista. O conceito de pundonor. O conceito de “ser” homem justo. Talvez evitasse até - e nós sabemos que é capaz de não ter nada a ver com o que deixamos escrito... - que, há tempos, logo após a cimeira das Lajes, na página oficial da Casa Branca, Aznar, que era o chefe do governo de ent\ao, aparecesse como presidente da Espanha, que é (ainda) uma Monarquia. E que Durão Barroso aparecesse como... Durão Burroso! Está lá escrito!

 

 

Pacto de Estabilidade e (ou...) Crescimento. Fumo cinzento!

 Luis Barreira

Os ministros das finanças dos países da “zona euro” experimentam sérias dificuldades em reformular o conteúdo de um tratado que, ainda não há muito tempo, os uniu em torno da moeda única europeia. Tão sérias quanto têm sido as dificuldades de alguns dos países membros deste grupo restrito, em conseguir cumpri-lo, desde a sua aplicação.

Num esforço de consertação entre: as políticas económicas nacionais, com as assimetrias que as distinguem; o rigor financeiro que deve prevalecer no seio da União Europeia, enquanto base de uma moeda sólida; as “eternas” contradições entre os pequenos e os grandes países que fazem parte da Europa a 12 (ou a 25), os que cumprem e os que não cumprem, os que contribuem e os que recebem; o crescimento económico e a coesão social, para o qual o emprego é um factor decisivo e a estratégia de Lisboa um objectivo; uma situação económica internacional, pouco propícia a conjecturas de grande optimismo e uns Estados Unidos a braços com uma crise orçamental, mas concorrente nos mercados externos, Jean-Claude Junker, Primeiro Ministro do Luxemburgo e actual Presidente em exercício da EU e um dos mais notáveis negociadores de consensos que esta Europa produziu, ameaça “explodir”, face à intransigência de alguns dos seus pares, não aceitando a revisão do Pacto e deixando ficar as coisas, tal como elas estão!

É evidente que, e após os “deslizes” orçamentais de vários países, entre os quais Portugal, (factor de importância muito relativa), deixar ficar as coisas como estão, não conduz a nenhuma solução dos problemas económicos e financeiros do passado, do presente incerto e muito menos do futuro próximo.

Com efeito, a estabilidade financeira não é compatível com todos os modelos de crescimento económico, se tivermos em consideração o desmesurado aumento dos níveis de desemprego, de que enfermam muitas das nossas sociedades e a protecção social dos cidadãos, que constitui um pilar da nossa civilização europeia.

A acrescentar ao grau de dificuldade, das derivantes dos mercados internacionais, está igualmente um problema de peso. O clube de países, que constituem hoje a zona euro e que se pretende alargar progressivamente aos restantes membros, não é um todo homogéneo, em termos de máquina produtiva, de capacidade de inovação e de investimento. Por enquanto (...), a União Europeia, não é um todo, mas o somatório de partes sociais, económicas, culturais e políticas diferenciadas, cuja gestão global só pode ser conduzida gradualmente, por etapas e com prioridade para a aproximação de valores consentâneos com uma cultura de aproximação social, que permita uma mobilização geral, em torno dos mesmos objectivos económicos e uma consciência política comum, na construção de um ideal de sociedade.

Razão pela qual a União Europeia não é comparável aos Estados Unidos da América, nem os “Estados Unidos” da China, no que diz respeito à competitividade e à capacidade de mobilização económica, com os recursos humanos e materiais imediatos, mas ela pode vir a ser muito mais forte, se a “razão” prevalecer sobre o imediatismo consumista, na construção de um verdadeiro bom nível de vida dos seus cidadãos.

Há talvez que inverter muitas das promessas que foram feitas, voltar a precisar muitos dos caminhos traçados ou reanimar alguns dos compromissos assinados.

Há, sobretudo, que olhar de mais perto para esta “mancha” humana, que está na infância das sua redescoberta, propondo-lhes uma visão superior à “manta de retalhos”, com que actualmente se cobrem!

No contexto histórico deste velho continente, a ideia de construir uma União Europeia era ainda uma utopia há bem pouco tempo... .

 

E agora, Portugal?

Fernando Cruz Gomes (Sol Português)

O “20 de Fevereiro” do “nosso contentamento” – “nosso”, no sentido de uma grande percentagem dos Portugueses – já lá vai. Inverteram-se papéis. Trocaram-se casacos. O que era ontem… deixou de o ser. E se o “sonho” que fez andar a máquina for para valer, Portugal vai ter uma fase de muito trabalho, sim, mas também de muito “alegria”. Bastará que os vencedores do pleito eleitoral joguem o jogo da verdade e levem avante todo um programa eleitoral que fez ganhar as eleições legislativas.

Não seremos nós a negar “força” e “vitalidade” a um grupo de pessoas que, rodeando José Sócrates, o fez avançar e transmitir ao Povo Português a ideia de que vale a pena sonhar. Que sonhar ainda é permitido e não paga imposto. E se é verdade que o sonho comanda a vida… valerá a pena fazer votos por que o sonho se concretize. Uma boa “esquerda” valerá tanto como uma “boa direita”, sobretudo se tivermos em linha de conta que “todos os partidos são bons desde que resolvam os problemas do Povo”.

E mesmo não acreditando que um “novo ciclo” se abriu para a governação portuguesa – hão-de dizer-me qual a diferença temática entre PS e PSD, os dois Partidos que se reclamam do centro… - somos levados a crer que vai haver uma nova maneira de encarar os problemas e de aplanar os caminhos para a sua solução. Problemas que são velhos – com duas décadas  ou mais – vão agora ter uma “mão” diferente a esquematizar soluções que o podem ser.

Apetece dizer mesmo o “Que Deus o ajude”, que já vimos em letra de forma, algures. Que Deus os ajude!

José Sócrates conseguiu enfileirar entre aqueles em quem o carisma é fundamental. Não parece ter ganho com os “notáveis” do seu Partido, mas conseguiu que eles se calassem e o deixassem trabalhar. Acho que Cavaco Silva também assim foi bafejado pela dama Sorte.

Não vai ser fácil a tarefa de Sócrates. Basta que resvale no incumprimento de uma das suas “teses” e aí podemos ter o caldo entornado. O “estado de graça” que o vai acompanhar nos primeiros dias poderá não ser de muita dura. O chefe do XVII Governo Constitucional terá de saber contornar as dificuldades e tentar cumprir muito do que disse e foi preciso dizer. Mil licenciados em tecnologia e gestão terão de ser colocados em pequenas e médias empresas. O ensino da língua inglesa desde o primeiro ciclo do ensino básico, também. Idem para formação profissional ou ensino obrigatório até aos 18 anos, para colmatar a taxa do abandono escolar. Os jovens são bem capazes de entender tudo isto. Como os desempregados acabarão por perceber que algo mudou se se criarem os tais 150 mil postos de trabalho.

Só que para tudo isto é necessária solidificar a tal retoma económica que pouca gente vê como possível nos próximos tempos. Sim porque há ainda a promessa de tirar da pobreza... 300 mil idosos.

Tarefas quase ciclópicas. Tarefas que vão exigir um homem de garra e de determinação que José Sócrates demonstrou ser em campanha eleitoral. Mas... que tem agora de consolidar.

Deus o ajude!

 


 

 Portugal cor de rosa  Por António Cardoso 

 

Esperava-se uma derrota importante da coligação PSD/CDS, já anunciada por todos os institutos de sondagem, mas poucos acreditavam que o Partido Socialista conseguisse a maioria absoluta de forma tão folgada.

Preocupa-me cada vez mais o facto de que os eleitores escolham os governos em função da simpatia, das caras ou do carisma dos líderes dos partidos, em detrimento dos programas que apresentam.  É o que está na moda em todo o mundo, já não se ganham eleições a partir de programas, o principal é a imagem dos candidatos metodicamente coordenada ou mesmo criada pelos múltiplos profissionais que seguiram o exemplo de Jacques Seguéla, o “fazedor” de presidentes.

Os que se ocuparam de Paulo Portas falharam redondamente. O homem não parecia o mesmo, durante a campanha, parecia estar numa má peça de teatro onde houve engano na escolha do papel principal. Reconheceu ter falhado os seus quatro objectivos acrescentando sob forma de justificação que Portugal era o único país com uma diferença de 1% entre democratas cristãos e trotskistas. De quem é a culpa?

Tornou-se humano na declaração final de despedida tentando impedir as lágrimas que teimavam despontar.

Santana Lopes recuperou o sorriso, via-se que não era forçado. Estava à espera daquele resultado e isso era já visível na última semana de campanha. Pergunto-me se esse sorriso não seria de troça, pensando no desapontamento dos históricos do PSD que esperavam a sua demissão naquele momento.

Quando não há alternativas para se fugir aos debates com os adversários políticos que dominam melhor as matérias, usam-se estratagemas para iludir quem espera respostas concretas.  José Sócrates foi exímio nesse exercício. Estranho é que continue depois de ser eleito.  Fico chocado quando ouço o próximo Primeiro-ministro do meu país dizer no seu primeiro discurso de vitória, “conseguimos… os portugueses sancionaram os métodos de campanha dos nossos adversários”. Não será uma forma de reconhecer que a sua vitória se deve à fragilidade do adversário?

Esperava ouvi-lo agradecer obviamente aos eleitores e não só aos do PS, mas dirigir-se imediatamente a todos os portugueses, falando-lhes das dificuldades da tarefa e de esperanças no futuro. A primeira acção será de “financiar estágios nas empresas de mil jovens licenciados em tecnologia e gestão”. Pensava eu que Portugal tinha problemas muito mais importantes para resolver no imediato.

Mas acredito no homem, parece-me honesto e lutador. Agora que os conselheiros de imagem já procuram novos desafios, vai certamente pôr mãos à obra e trabalhar a sério para melhorar a situação de Portugal.

 

Vale a pena acreditar!

Pronto,...já está!

O Presidente da República Portuguesa decidiu dissolver a Assembleia da República, considerando que a coligação PSD/PP já não tinha condições para governar. O povo português votou,... e deu-lhe razão!

Esse mesmo povo modificou radicalmente o seu sentido de voto, atribuindo ao Partido Socialista uma larga maioria  e aos restantes partidos da oposição, uma situação mais confortável na Assembleia da República. O povo responsabilizou-os e vai ser exigente com eles!

Mas, pese embora a maioria absoluta do Partido Socialista, que lhe vai permitir governar sem sobressaltos e sem o quebra-cabeças do “queijo Limiano”, a responsabilidade deste partido é de tal ordem que, a não ser que se modifiquem muitos dos procedimentos governativos habituais, deste histórico partido, a sua acção vai ser constantemente posta em causa, pela oposição e por largos sectores do eleitorado que, desta vez, lhe deram a preferência do seu voto.

Ficou provado, mais uma vez que, em Portugal, nenhum partido se pode arrogar de ter um eleitorado substancial e estável.

Todos os partidos políticos que, a 20 de Fevereiro de 2005, ganharam votos, vão ter, mais tarde ou mais cedo, que prestar contas a quem os elegeu

O Partido Socialista deve a sua vitória aos sectores da população mais inclinados à social-democracia moderna, descontente com o seu partido natural.

O Partido Comunista, contra todas as expectativas, atingiu a estabilidade perdida, pela postura humanizante do seu novo Secretário-Geral.

O Bloco de Esquerda triunfou, eleitoralmente, porque soube dar voz inteligente às minorias produzidas pelas nossas modernas sociedades.

Mas,...todos os que obtiveram ganhos eleitorais, conseguiram-nos, não tanto pela força das suas ideias, mas mais pelo descontentamento que a anterior governação lhes provocou.

Por isso se espera, dos partidos vencedores, uma nova forma de fazer política.

Por isso se aguarda que, os partidos perdedores, saibam recolher os ensinamentos necessários do que se passou e assumam, nesta legislatura, uma oposição responsável, séria e construtiva.

O País não se pode permitir de outra atitude!

Como gerir, da melhor maneira, o social e o económico, é o grande desafio que se coloca ao Partido Socialista. Por isso, este partido tem agora uma enorme responsabilidade: se a Administração Pública é pesada e obstrutiva; se o nosso sistema de saúde está doente; se o ensino está mal estruturado; se a justiça enferma de vícios processuais; se o nosso aparelho produtivo está desadequado; se a nossa Defesa Nacional  está aquém, da eficácia necessária e muito para além das nossas possibilidades; se a nossa fiscalidade se assemelha a uma “rede de pesca de carapaus e deixa passar tubarões”; se o endividamento das famílias portuguesas atingiu níveis insuportáveis; se a miséria grassa, de forma exposta e encoberta; se as auto-estradas para o interior são uma ponte, entre uma prosperidade aparente e a terra de ninguém; se a população envelhece desprotegida e os novos evitam ter filhos, com medo da vida; se os valores sociais de referência, continuam a ser os carros de alta cilindrada e os telemóveis de nova geração. Mudar tudo isto, para melhor, sem perder de vista as grandes preocupações sociais, como: o emprego, o nível de vida, a saúde e a justiça social, é um trabalho gigantesco, no tempo e no espaço de uma legislatura.

Por isso a maioria absoluta não chega!

Se os partidos, que agora ficam na oposição, se afirmarem pela positiva e não pela obstrução sistemática, mais tarde ou mais cedo serão recompensados eleitoralmente, pelo seu empenho nacional e, o País, ganhará.

Se o partido que agora assume o poder, independentemente da sua não dependência governativa formal, souber escutar, analisar e decidir, em conformidade com as críticas justas e mobilizar um povo que, fora e dentro do seu País, está disposto a colaborar para o progresso da sua terra e das suas gentes, então podemos dar passos de gigante, em direcção a um futuro melhor.

São talvez demasiados “ses”, mas vale a pena continuar a acreditar!

 Luis Barreira

 

 

O dia 21 de Fevereiro vai ser interessante...

Fernando Cruz Gomes (Sol Português)

Interessante será seguir, calmamente, se possível, o desenrolar da campanha política em que estamos embrulhados. Dar uma de saloio e fazer de conta que não vimos, não sabemos, nem queremos saber... mas vendo, sabendo e querendo saber. É que o pior, em qualquer um dos casos, é saber – e nós sabemos – que tudo quanto se fizer, agora, em matéria de escolher Governo vai afectar milhões de pessoas. Que já apertam o cinto há anos a mais. Que já gemem o temor de ficar pior ou na mesma, sempre que ouvem alguns políticos a abrir a boca.

Porque, no fundo – e a ideia nem é nova – há que escolher entre os que não nos conseguiram tirar da crise, os que nos atiraram para lá e os que haveriam de continuar no mesmo rumo se estivessem no poleiro. Assim sendo... vai ser um fartote ouvi-los a todos, dia após dia, a vender a já conhecida “banha da cobra” que daria para curar todas as mazelas.

Depois de uma revolução que muitos apelidaram dos cravos – e não o foi tanto assim – aí temos a chegar a “conta da modista”. Fizeram-se vestidos bonitos a mais, aperaltaram-se os senhores e abonecaram-se as damas. Vestiu-se fato novo em cada dia que passava sem lembrar os ensinamentos do nosso Povo segundo os quais “quem quer andar sempre de novo... anda sempre de velho”. Comeram-se refeições a mais mesmo em país onde ainda há gente com fome.

Assim, aumentou o despesismo, caíram as barreiras que impediam o desemprego, foram-se os anéis... e os dedos ficaram um tanto ou quanto machucados, precisando rapidamente e quase in extremis de uma operação salvadora. E a Europa, que nos acenou com cenouras a mais não parece ter contemplações com um parente pobre que teima em bancar de rico. Manda-nos a conta da modista. E do merceeiro. E dos muitos fornecedores que teimamos em esquecer.

Se não conseguirmos fazer marcha atrás, no nosso afã de gastar mais do que ganhamos, é certo e sabido que entramos numa onda avassaladora. Que nos há-de manietar de tal modo que não conseguimos despir a camisa (de muitas varas...) em que nos espartilham. Se não conseguirmos poupar nas galopantes despesas – até, e sobretudo, com o Estado e seus (maus) servidores – o caminho do fim está próximo. E nem sequer sabemos se as próximas eleições não serão as últimas. É que a Europa não há-de querer ter no seu seio um parceiro tão perdulário, tão despesista, tão “não te rales” que teima em exportar para os outros uma forma atávica de ser que só pode causar mal-estar.

Houve, de facto, nos últimos dez anos, muitos desmandos. Dos que nos ajudaram a entrar na crise e daqueles que, mesmo jurando a pés juntos que nos iriam puxar para cima, mais não fizeram do que... empurrar para baixo. Talvez porque a panaceia imposta já não tem pernas para andar. Desmandos muitos a dar-nos a entender que Portugal, enquanto Nação, necessita cada vez mais de uma clarificação de intenções, suportada por um rol de medidas práticas que já não podem tardar.

Programas realistas. Intenções honestas. Políticos que consigam pôr acima dos seus, os interesses da colectividade. Sem pensar nos chamados “media” que jogam para todos os lados desde que esses lados sejam os dos seus próprios interesses. Que não deixam andar em frente mesmo àqueles que fazem disso o seu cavalo de batalha. E que criticam por igual os ministros que sabem o que estão a fazer e os outros. Não há, de facto, pachorra para ouvir tantos dislates. Com as Finanças a sofrerem com isso. E com a opinião pública a ser, dia após dia, “metralhada” com ideias-força falhas de bom senso.

Felizmente que já não há tempo nem condições para fazer sair de uma qualquer aldeia ou vila de Portugal um homem de botas cardadas que ponha o país a pensar certo. Porque, se o houvesse, neste momento, éramos bem capazes de estar à beira de algo de que nos envergonharíamos para todo o sempre, já que as ditaduras têm todas os dias contados.

Desta forma, a 20 de Fevereiro, importa votar bem. Abjurando as falinhas mansas de quem só quer o poleiro, mas atendendo tão somente às ideias-força que nos forem atiradas. Sobretudo importa escolher os políticos que nos injectem uma certa dose de confiança. Que anda perdida há mais de uma década. E que teima em ser dama prendada e séria que só se dá a quem a merece. E às vezes... pensamos não merecer ter confiança.

 

 

Crónica do tempo que passa

Perguntas (ou adivinhas) muito incómodas

Fernando Cruz Gomes

 “Os factos não deixam de existir só porque são ignorados”. A frase é do escritor britânico Aldous Huxley. Nunca como hoje, no Portugal moderno, teve tanto sentido. Com as eleições à porta... ignoram-se factos. Atropelam-se corações. Viram-se latas de ódio. Destila-se veneno. E quando se ignoram os factos, há quem pense que eles não existem.

Talvez por isso – e lá voltamos nós a citar um escritor, desta feita escocês – “as verdades mais cruas são, muitas vezes, ditas em silêncio”. Robert Louis Stevenson sabia o que dizia. E tentava, nos seus romances e poemas, dizer aos homens seus irmãos... que talvez o silêncio faça muito barulho

São mais que as mães... os que falam agora na viagem de Morais Sarmento a São Tomé e Príncipe. No preço da viagem. Nas “férias” que o Ministro teria feito durante 24 horas. No pouco resultado que se vê e se há-de ver. E a Comunicação Social – a nossa querida Comunicação Social – bate na mesma tecla. Que é imoral. Que não deveria ser feita a viagem quando o Governo está em gestão. Que...

A verdade é que, por esta mesma altura, ninguém fala na luzidia comitiva que o inefável Presidente da República levou à China. Foram mais de 100 pessoas. Até dizem que foi a maior comitiva que algum dia acompanhou o Chefe de Estado a uma visita oficial. A Imprensa, neste caso, enche páginas e preenche telejornais. Canta loas à iniciativa que pode ser – será mesmo? – do maior interesse para Portugal e para os Portugueses.

Nos casos em apreço... todos sabem – saberão mesmo?! – quanto custou a viagem de Morais Sarmento a São Tomé. Os rios de dinheiro que ele gastou... Não sabem – e, pelos vistos, nem querem saber – quanto custou a viagem de Jorge Sampaio e dos seus apaniguados a terras chinesas.

E se nos interrogarmos sobre tudo isto, não poderemos deixar de nos interrogar também sobre muitos outros casos. Sabemos quais são os gastos do Governo. Quantos “amigalhaços” eles metem nas secretarias dos Ministérios. Ninguém se interrogou, ainda, quantos funcionários – alguns a funcionar muito pouco... – estão na Presidência da República. Quanto gastam por ano. Como é que foram feitas as respectivas nomeações e a que critérios obedeceram.

Naturalmente que são perguntas incómodas. Daquelas a que ninguém quer responder. O que interessa a uns quantos é dar relevo e ênfase às asneiras – ou pseudo-asneiras – de... uns quantos. O que interessa, na mesma direcção, é esquecer as asneiras de outros.

Ainda ninguém reparou, por exemplo, que o PS prometeu resolver o intrincado problema do défice numa legislatura (4 anos). Ninguém pergunta aos seus dirigentes porque é que o mesmo Partido sempre exigiu que os outros fizessem esse “milagre” em dois anos ou mesmo num. Ninguém se interrogou sobre isso. Ninguém pensou que a clubite da esquerda... tem sempre razão, enquanto que o que parece direita é sempre... execrável.

E se entrar em Lisboa... e já que estamos com a mão na massa, pergunte porque é que será tão importante culpar uns por terem iniciado uma obra que foi interrompida durante 8 meses (o tal túnel do Marquês), e ninguém dar importância ao facto do Supremo Tribunal afinal ter dado razão a quem iniciou a obra?

Perguntas incómodas, nós sabemos. Perguntas a que ninguém quer responder. Sobretudo nas Redacções dos Jornais, das Rádios ou das Televisões.

Chega a parecer que estas perguntas incómodas não são feitas porque o “lobby” da Comunicação Social, em Portugal, num crescendo que todos fingem não ver, está a tentar manipular a opinião dos Portugueses. Condicionando assim os resultados destas e das próximas eleições.

 

 

O “Cabo das Tormentas”

Por Luís Barreira

Dentro em breve os portugueses, no interior e exterior do País, vão ser chamados a escolher os seus deputados. Vão ser chamados a designar os homens e mulheres que, independentemente das suas convicções e dependências politico-partidárias, virão a ser os legítimos representantes do povo português e os responsáveis pelos destinos de Portugal, durante os próximos quatro anos.

Quatro anos que, por razões internas e externas (com impacto interno), não se afiguram como um simples passeio no “jardim à beira-mar plantado”, mas mais como o enorme desafio (já vivido no passado) de dobrar o “cabo das tormentas”.

Penso que já se falou suficientemente sobre as dificuldades internas do nosso pequeno Portugal: uma economia fraca e em recessão; um déficit público elevado; uma competitividade empresarial abaixo das necessidades; um desemprego elevado, com consequências graves, ao nível das estruturas de apoio social; um descrédito na eficácia das instituições; um pessimismo elevado das populações e dos agentes económicos; etc, etc.

Penso, igualmente, que muito já se disse sobre os desafios externos de pertença a uma comunidade de 25 países, que dá pelo nome de União Europeia: critérios financeiros dolorosos, para continuar na zona euro; diminuição dos subsídios ao desenvolvimento; rigor na aplicação das suas directivas; política externa condicionada e política interna estável; contas públicas transparentes; pressão sobre a nossa capacidade de inovação; etc, etc.

Os portugueses também já sabem que vão ter uma legislatura (ou mais), plena de sacrifícios, para ultrapassarem as actuais dificuldades, alguns anos de paciência e boa vontade, para poderem instituir um País moderno e próspero.

Não sabem ainda, mas vão saber, quais são as propostas político-partidárias para sair da actual situação e encontrar um rumo certo para a Nação.

O que de pouco se tem falado, vejo e oiço, é sobre a correspondente prática social, a um projecto de sociedade a precisar de grandes transformações, ou seja, a necessária mudança de atitude da nossa classe política, para com o eleitorado e para com as responsabilidades da governação.

Críticos oiço muitos. Até parece que virou moda ser-se meramente crítico e critica-se cada vez mais sem substância, confundindo os fait-divers, com os assuntos de importância decisiva.

Apartidários, envergonhados das suas verdadeiras convicções ou sem elas, a gente partidária, com objectivos inconfessáveis ou por mero despeito, os “velhos do Restelo” têm vindo a assumir um papel preponderante na paisagem mediática, sem que a sociedade, embriagada por muitos dos programas televisivos de cha-cha (sem h), se contraponha de forma séria e responsável.

Até parece que é preciso bater com a cabeça no muro para saber que os média (e nomeadamente os canais televisivos) não são o primeiro poder do Estado, não são eleitos por ninguém, não têm que ter nenhuma responsabilidade sobre as decisões governativas. São, exclusivamente, veículos de expressões várias, algumas interessantes e a ter em conta, outras, autêntico “lixo”.

Por isso se justifica cada vez mais uma clareza e frontalidade da nossa classe política. Os partidos e os seus partidários devem, cada vez mais, apresentarem-se pela positiva, pelas suas próprias ideias e projectos e muito menos por oposição a uns e a outros. Os responsáveis partidários, que aspiram submeter-se ao eleitorado e ganhar a sua confiança e solidariedade, não podem (devem) afinar os seus discursos pelo diz que disse, pelos títulos bombásticos da imprensa, pelas suas ambições pessoais ou de grupo. O País precisa de dirigentes nacionais que saibam conduzir um povo, sem olhar ao seu emblema da lapela.

E não me venham dizer que é preciso esperar por uma nova geração de políticos, para que as coisas melhorem. Daqui até lá morremos de fome e,....a fome, nunca foi boa conselheira.

 

 

O PACTO DE REGIME

Por Luís Barreira

Há muito tempo que foi diagnosticada uma “doença” social, política e económica em Portugal, cujo tratamento eficaz, deveria envolver uma atitude de conjunto de, pelo menos, os maiores partidos políticos portugueses, uma vez que todos seria, à partida, pedir o absurdo!...

Ao longo dos anos da nossa jovem democracia, a atitude partidária mais usual, dos partidos portugueses, tem sido sempre a de, cada uma das forças políticas assumir publicamente o papel de centro de gravidade, da vida sócio económica do País, excluindo as outras de um projecto  global. As alianças pré-eleitorais, quando acontecem, destinam-se, quase sempre, a valorizar cada um dos partidos envolvidos, por forma a obter dividendos pessoais que conduzam a um divórcio posterior e, logicamente, à assunção de um presumível primeiro lugar nos futuros scores eleitorais.

Esta postura politico-partidária, que não escapa até à ambição dos pequenos partidos políticos, num contexto de um País envolvido numa geografia económica e política, de que não pode fugir e que condiciona a filosofia de todos os projectos  políticos de governação de todos os partidos, “pintem-se” eles com as cores que quiserem, tem provocado uma acção de retardamento permanente do nosso desenvolvimento e um caos, cada vez maior, no interior dos próprios partidos políticos.

A juntar ao quadro negro, da actual situação em Portugal, os portugueses sentem-se cada vez mais frustrados na sua vida quotidiana e nas suas expectativas, acentuando um claro desfasamento com os poderes instituídos, o que pode revelar (perigosamente) uma falta de crédito no regime e uma apetência pela crítica fácil, em que tudo se confunde, ou por “vendedores de banha da cobra”, venham eles das ilhas ou do continente.

A actual crise bate no fundo da estrutura sócio-económica portuguesa, ela é resultado de um “relaxe” permanente das nossas “cabecinhas pensadoras”, habituadas ao vaivém da alternância do poder, para o qual, basta apenas trabalhar para o voto. A situação a que hoje chegámos, não é o resultado de um simples fenómeno conjuntural, provocado por um aumento súbito do preço da gasolina ou por um mau ano de colheitas, ela obriga, irremediavelmente, a uma conjugação de esforços entre as maiores forças políticas e estas não devem ter vergonha de o assumir publicamente, por receio de serem criticadas.

De nada vale ganharem-se as eleições, arrogando-se de não terem cometido o “pecado de casamentos de conveniência” se, após o poder assumido, não se sabe o que fazer com ele, para não cair em contradições.

Os portugueses já votaram vezes sem conta e já disseram que querem manter a existência de vários partidos políticos. Por favor reconheçam-no!

Os portugueses são cada vez mais indiferentes à filosofia ideológica que lhes propõem e cada vez mais atentos à forma como vivem. Por favor considerem-nos!

Os portugueses são capazes de compreender que os homens políticos também se enganam. Por favor sejam mais verdadeiros!

Felizmente que, àquilo que aqui tantas vezes tenho exposto, muitas vozes hoje se associam. E,...se os nossos políticos não estiverem dispostos a baixar a guarda de alguma arrogância, de que historicamente enfermam, fazendo alianças sólidas inter-partidárias, a pensar em Portugal, que façam um “Pacto de Regime”, sobre as questões fundamentais da sociedade portuguesa, a pensar nos portugueses!

 

Um emigrante no governo

Por António Cardoso 

Para mim continua a ser o Carlos, o rapaz que conheci há muitos anos, um funcionário competente do consulado de Nogent sur Marne, o sindicalista e militante do PSD de Paris e sobretudo o filho de um Sr. Gonçalves por quem sempre nutri o maior respeito e admiração. Nada de singular é apreciado por toda a gente. Encontrei-o ainda há pouco, durante as férias, num supermercado em Castelo Branco onde como eu, fazia compras com a esposa. “O Carlos passou por cá ontem...” disse como se lamentasse um desencontro. Fiquei feliz por vê-lo de novo revigorado depois dos problemas de saúde que o afectaram. Bebemos um café e conversámos, sobretudo sobre as novas funções do filho, é claro. Tentava disfarçar o orgulho que sentia mas traía-o um intenso brilho nos olhos, era ainda recente a sua nomeação como Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas. Percebi que o sucesso empresarial alcançado não representava nada comparado com a alegria de ter agora o seu filho no governo e para mais com o pelouro das comunidades.

Quis deixar passar algum tempo antes de solicitar uma entrevista com o novo secretário de Estado das Comunidades, deixar-lhe o tempo de se confrontar com a realidade da dificuldade do exercício dessas funções. Não aquela pseudo realidade veiculada por gente da oposição à maioria governativa actual que critica tudo o que se faz quando já não está no governo. Gente que sempre se opôs ou apoiou partidos que sempre se opuseram à obtenção de direitos iguais entre os portugueses expatriados e os de Portugal.

Carlos Gonçalves recebeu-me com a mesma descontracção de sempre, no Palácio das Necessidades, era o mesmo, não tinha mudado nada, falámos de França, de  Paris, de Lisboa, de Portugal, das suas preocupações em assumir compromissos eleitorais e do seu desalento por  não dispor de meios suficientes para responder às carências das comunidades.

Já se diz em Portugal que o melhor ministro deste governo é António Monteiro, ministro dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades Portuguesas e anterior embaixador de Portugal em França. Foi também na opinião de muitos, um dos melhores embaixadores de Portugal que esteve em França, sobretudo para a comunidade portuguesa. Com um novo secretário de Estado das Comunidades oriundo da emigração é talvez a primeira vez que temos no governo políticos que defendem realmente e com a maior honestidade uma verdadeira política de valorização das comunidades.

Também nós temos pela frente um grande desafio, implicarmo-nos cada vez mais na vida política portuguesa por forma a que os nossos descendentes deixem enfim de ser considerados como portugueses de segunda.

 

A cooperação ibero-americana e a sociedade da informação

Artur Castro Neves*

A economia contemporânea apresenta como principais características: um  forte peso do conhecimento, inteligência e informação nos processos de concepção, decisão e programação; e grandes pressões concorrenciais exigindo, primeiro, economias de escala e, seguidamente, mercados de capitais abundantes, vocacionados para altos riscos.

Pode dizer-se que nas novas condições económicas as operações que mais acrescentam valor são aquelas que consistem na introdução de informação e conhecimento nos processos produtivos: concepção e desenho, embalagem e marketing. A competitividade mede-se pela capacidade em armazenar, classificar, tratar, explorar e transmitir a informação.

Mercado ibero-americano e economia global

A expansão mundial dos telefones, dos aparelhos de televisão e de música, do material informático, das indústrias de serviços de informação e de entretenimento constituí  a expressão e a alavanca da economia global.

Esta internacionalização, que começou por ter a forma de aumento das exportações, acabou por tornar-se num modelo da actividade económica, em que o dimensionamento empresarial passou a depender do acesso ao mercado mundial ou, mais correctamente, a partes significativas deste mercado. Este dimensionamento põe de novo aos pequenos países e às economias emergentes o problema das massas críticas e dos investimentos necessários para ter em conta “break evens” e níveis de risco financeiro extremamente elevados.

Esta evolução torna imperativas estratégias de cooperação regional com especial relevo nos sectores da convergência entre as tecnologias da informação, as telecomunicações e as indústrias de conteúdos.

Numa sociedade em que os tempos livres desempenham um papel central na despesa privada (de reconstituição e desenvolvimento do capital humano), o divertimento e a cultura tornam-se bens de grande procura

O papel dos ‘programas e conteúdos’, o papel do entretenimento no interior dos conteúdos, e, finalmente, o papel do audiovisual, no interior da indústria do entretenimento, tornaram-se factores estratégicos de crescimento e competitividade.

A existência de uma comunidade de nações ibero-americanas, reunidas em torno de um conjunto de elementos comuns - históricos, culturais e linguísticos – constitui um trunfo  na definição de estratégias de cooperação e oferta de conteúdos no contexto da convergência e crescimento da sociedade da informação.

A cooperação ibero-americana

O terreno que melhor revela a importância dos aspectos culturais -e mesmo linguísticos- na competitividade económica são as indústrias de conteúdos.

Tanto a indústria multimédia (jogos, ensino, cultura…) como a indústria do entretenimento e do audiovisual, constituem oportunidades de negócios e de desenvolvimento económico e social, com base em elementos culturais e linguísticos próprios. Daí que estas indústrias devam constituir base de desenvolvimento das economias nacionais.

Nesta tripla perspectiva - histórica, cultural, linguística -, o espaço ibero- americano constitui um quadro favorável ao desenvolvimento de parcerias nas áreas dos serviços e conteúdos.

A capacidade interna e externa dos operadores ibero-americanos a dimensionar as suas actividades na escala do referido substrato comum, constitui um desafio para obter vantagens comparativas no contexto da sociedade da informação e da concorrência global.

*Presidente da Associação para a Promoção Cultural do Norte de Portugal

Organizador da 4ª Conferência Internacional “A comunidade das nações ibero-americanas e a sociedade da informação” (Porto, de 25 a 27 de Outubro de 2004)
 

 

Eleições americanas. Não podemos votar, mas podemos pensar!

Por Luis Barreira

À hora a que escrevo estas minhas habituais linhas, ainda não sei o resultado das eleições americanas. No entanto, para aquilo que hoje vos quero dizer, não é tão importante saber quem ganhou, mas muito mais relevante do que isso é que, seja qual for o resultado, ele não nos deve ser indiferente.

Com o desmembramento da antiga União Soviética e todo o conjunto de problemas que afectaram e afectam a Rússia, o mundo deixou de viver entre o equilíbrio das duas superpotências, um equilíbrio de terror, sustentado pela ameaça das ogivas nucleares, de um lado e do outro, para se lançar numa nova era em que, apenas uma das partes, os Estados Unidos, manteve a supremacia militar e a sua influência estratégica sobre o globo.

Muitos dos conflitos regionais, em certas áreas sensíveis do planeta, que antes eram zonas de influência de cada uma das potências e muitas das vezes resolvidos, ou não, pelos respectivos aparelhos político-militares, (alguns dentro da maior discrição), passaram para o conhecimento geral do grande público, como conflitos e guerras dispersas, alimentados por armamentos de origem diversa e, muitas vezes, pelos mesmos fabricantes de material de guerra de outrora.

Se a ausência da paz “podre” de antigamente, nos faz pensar hoje, que os conflitos no mundo nos parecem fora de controlo, a situação actual não é exactamente essa.

Muitas vezes no passado, a corrida aos armamentos, era condicionada pela competição das estratégias político-militares, para preservar hegemonias e influências, capazes de assegurar o controlo sobre as fontes de matéria prima, tão essenciais às economias das antigas superpotências e seus aliados.

Hoje, já não é a competição armamentista e os perigos de uma inferioridade militar face ao inimigo, que é utilizada como argumento para sensibilizar favoravelmente a opinião pública, face ao envio de tropas e armas, para qualquer ponto do globo. No entanto, o objectivo é o mesmo.

Hoje, é a paz que serve de escudo para todas as intervenções e é em nome de Deus, que se justificam muitos dos atropelos à lei internacional e muitas das atrocidades cometidas.

Se tivermos em conta que só os Estados Unidos mantiveram o seu aparelho militar, ao nível da intervenção planetária, não nos custa perceber como é perigoso, ter à frente dos destinos da nação mais poderosa do mundo, alguém, que se intitulando mensageiro divino, decide ser o polícia do mundo, para assegurar a paz que lhe é conveniente.

Nestas condições não nos pode ser indiferente quem vai ser o próximo Presidente americano, por dois tipos de razões:

Por um lado, pela política externa deste País, cuja influência no resto do mundo pode conduzir-nos a desastres humanos e a guerras evitáveis, com consequências para todos, quer queiramos ou não envolver-nos nos conflitos;

Por outro, pela posição económica de supremacia que este País tem, sobre o desenvolvimentos das economias mundiais, influenciando-as, não só por acção da sua política externa, como também pelas próprias medidas que assume, no contexto interno dos Estados Unidos.

Razões de sobra para estarmos vigilantes face ao resultado destas eleições americanas.

Se antes se contestava a existência de dois grandes poderes que se digladiavam entre si, hoje não é menos perigoso que, só um dos poderes, possa ser utilizado por alguém menos racional ou completamente alheio ao sofrimento dos outros povos.

A alternativa ao actual estado de coisas, não é voltar a criar outra superpotência, mas sim criar uma verdadeira alternativa de política externa, em que prevaleçam as justas relações entre os povos e o respeito pela sua diferença. Só assim podemos alcançar a paz possível.

 

Trovoada nos céus de “São” Pedro

Fernando Cruz Gomes

As nuvens já se acastelam. Vindas de vários quadrantes, são capazes de rumar lá mais para norte, onde (em Barcelos) se vai abrir o conclave do Partido que está no Poder e que no Poder se quer manter. E mesmo que, hoje por hoje, todos os comentários se centrem nas eleições americanas e naquilo que o mundo pode esperar do seu desfecho, há outros “caminhos enlameados” onde a turbulência climática se pode fazer sentir. O que se torna perfeitamente natural, num mundo em que Washington manda, dá cartas e até apanha os figuetes que antes atirara aos céus, mas que não é ainda “dono único” das verdades eternas (com grande mágoa sua, entenda-se).

Há, de facto, temas que, mesmo sem a eventual grandeza das ditas cujas eleições, acabam por ganhar espaço nos órgãos de Informação do nosso país de origem. Os dias que estão a correr afiguram-se poder ser determinantes para o actual primeiro-ministro de Portugal. Pedro Santana Lopes terá de usar todo o cabedal político de que dispõe para se encrespar contra uma série de pressões que o assolam. E mesmo que tenha, à mão de semear, uma “arena” onde costuma brilhar – o Congresso a 12, 13 e 14 deste mês – ainda não é dado adquirido dizer que ele tem o “caminho aberto” para governar tranquilamente.

Entenda-se que o líder social-democrata há-de querer fazer do Congresso um patamar de consagração pessoal. Com garantias de fidelidade. Com afirmação de uma “cartilha” que já está lida. E olhando em frente, vendo o horizonte das eleições autárquicas e das presidenciais, decerto que o até há pouco “enfant terrible” do PSD há-de querer trazer uma “capa” de vencedor. Que, durante muitas luas, lhe fugiu no último minuto.

Só que, já se ouvem vozes no interior do PSD que se atrevem a culpar o líder das derrotas eleitorais das Europeias e das Regionais. Serão vozes ainda pouco perceptíveis. Talvez com o tom de quem diz achar “não ser a altura de abrir brechas...”, mas a darem o mote para muitos dos que podem alimentar esperanças de o deitar abaixo. E isto, numa altura em que os autarcas dão mostras de algum descontentamento, pode vir a ser muito mau.

Ainda não há muito, alguém dizia que Santana terá de “esquerdizar” um pouco mais o seu discurso, tirando o protagonismo ao seu colega de coligação e fazendo calar as vozes dos que começam a ouvir muito o estilo de ser de José Sócrates, para quem o melhor mesmo era que Santana saisse de Barcelos como líder de uma facção do partido e não como... vencedor credível do partido-referência que é ainda, por agora, o maior de Portugal.

Se juntarmos às “lutas” visíveis, aquelas que podem advir da tentação de muitos “barões” de deixar cair a coligação – o que poderia, eventualmente, dar a Sampaio o “mote” para provocar eleições antecipadas – entenda-se que não vão ser fáceis as próximas semanas do líder social-democrata e primeiro-ministro. Sobretudo por haver ainda “feridas” que ainda não sararam. Como é o caso da de Marcelo Rebelo de Sousa. Que a oposição tem estado a levantar como “bandeira” de quem acredita que o rei vai nu... pelo menos em matéria de democracia de intenções. E que, mesmo no interior do Partido, tem apoiantes de certa craveira.

Se o rei não vai nu... importa prová-lo. Cada vez mais, os tempos não se compadecem de líderes fracos. Daqueles que, olhando à esquerda e à direita, não vê mais do que... o abismo. Que quer (e ainda pode) evitar. Mas que só com uns quantos murros na mesa. Mesmo que façam sangue e provoquem suor e talvez até lágrimas...

 

 

O contraditório... que ninguém quer

Fernando Cruz Gomes

Terça-feira, 2 de Novembro. A SIC dava como “notícia” – nota ou “suelto” – a informação de que o Cônsul-Geral de Portugal em Toronto, ainda retido em Lisboa, tinha sido retirado de Toronto. Era a primeira vez que aquela estação se referia a um assunto que apaixonou grandes extractos sociais luso-canadianos. Referia-se, no entanto, a um acontecimento que ocorrera a 21 de Agosto. Fazia-o, mesmo assim, ouvindo uma das partes. Só uma das partes.

Como a informação – seria mesmo (des)informação? – tinha origem em Toronto, é certo e sabido que quando a “história” foi construída se sabiam muitas mais coisas. Que ficaram, no entanto, no tinteiro. Como seria de bom tom... para quem quer brilhar, mesmo que seja necessário atropelar alguém.

É que, agora que tanto se fala no “contraditório”... não houve contraditório. Esqueceram-se de levar a cabo o tal contraditório que os ministros exigiram quando o prof. Marcelo Rebelo de Sousa fazia comentários na TVI. Esqueceram-se pronto.

Sabendo, como sabiam, que Artur Monteiro de Magalhães não estava autorizado a falar sobre o tal incidente com a OPP de Aurora, entenderam que era melhor ouvir a Polícia. Como se ela tivesse a verdade única. Nem sequer se dignaram ouvir o Governo Português, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, a saber o que é que se passou. Sim, porque se o Ministério não deixa aquele diplomata falar sobre o assunto... tem de ser ele a arvorar-se em advogado de defesa. Se tem autoridade para o proibir de falar, naturalmente que tem de tomar a parte de defesa.

Mais grave, ainda, é o facto de não terem ouvido a única testemunha civil (à falta de melhor termo) que assistiu a tudo. Já não se pede, como é evidente, que se fale com a esposa do cônsul, que ia também no carro, mas com a acompanhante – funcionária superior de um instituto em Lisboa – era o mínimo. Como tudo foi feito... só se ouviu uma das partes. Possivelmente a mais forte por ser autoridade... e por estar armada... mas faltou o contraditório.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal falhou. Ao deixar que numa estação televisiva de referência saísse uma história como a que saiu sobre um seu cônsul, sem tugir nem mugir, e obrigando a vítima a estar calada... é, de facto, de bradar aos céus. O António Monteiro, ministro, que é também embaixador, pode limpar as mãos à parede pelo que está a deixar fazer... já que, com acusações como as que impendem sobre o seu cônsul – não é todos os dias que se teria dado um soco num polícia... – fica quietinho. Não dá um murro na mesa e sai à liça na defesa... da verdade. Deixa, designadamente, a SIC sem o tal contraditório, de que agora tanto se fala.

Pobre País! Pobre Ministério! Se quem estas linhas subscreve não gostasse da actuação do tal cônsul, agora parado em Lisboa, ficava a gostar pelo enredo em que, face a ele, todos se vão estatelando. Até o Primeiro-Ministro de Portugal, que soube do caso, atempadamente. Sem se mexer. Como se não lhe pesasse na consciência... deixar fazer uma injustiça do tamanho de um camião.  É pena que também ele se vá atolando nestas contradições sem sentido. Contradições que começaram, até, com o Embaixador português que ainda está no Canadá... a fazer “negócio”, no que de mais lógico tem o termo, com a presença do Cônsul. Aliás, Silveira de Carvalho deve estar satisfeito: fez o que fez, não defendendo o cônsul... e trazendo rapidamente, ainda que em termos interinos, um outro funcionário para o lugar que é ainda de Artur Monteiro de Magalhães.

A SIC, que nos habituámos a estimar desde a sua génese, até por termos entre os seus trabalhadores alguns colegas, prestou um mau serviço à Informação. Pior, no entanto, fez o Governo Português à causa da... verdade.

 

Não vale a pena maquilhar os problemas!

 Por Luis Barreira

Os habitantes de alguns bairros periféricos da cidade do Luxemburgo, vieram a terreiro público manifestar o seu medo e a sua repugnância, pelo crescente trottoir de prostitutas e seus pares, drogados e traficantes, nas suas zonas de residência habitual.

Tratou-se, tão somente, de manifestarem, junto dos poderes públicos municipais, o seu receio face à marginalidade instalada junto das suas famílias e às consequências periféricas deste mal estar social, como é o caso de frequentes assaltos aos cidadãos e dos possíveis problemas causados às suas crianças, face ao abandono de seringas já utilizadas e às companhias pouco recomendáveis, que entretanto circulam.

O que se passa na periferia da cidade do Luxemburgo é, à sua escala, o que podemos encontrar em Paris, Roma ou em Lisboa.

As sociedades modernas, à medida do seu desenvolvimento positivo, criam igualmente um lumpem social, uma zona de “lixo” humano que, a não ser tratado, acaba por se amontoar e empestar, progressivamente, o resto da sociedade.

Só que, aquilo a que eu antes chamei de “lixo” humano, são pessoas, seres vivos que devem merecer, pelo menos, o mesmo nível de cuidados que todos os outros cidadãos e (pelo menos...) os mesmos recursos económicos, que se colocam à disposição do tratamento dos verdadeiros lixos!

Mas tal não acontece. Seguindo o velho ditado “longe da vista,...longe do coração”, a maior parte dos responsáveis pelo bem estar público, preferem afastar para longe dos olhares críticos dos cidadãos, este tipo de problemas, convencidos de que tal anulará o mal.  Assim, seguem-se permanentes medidas de recolocação de toda essa gente, em lugares afastados, criando “ilhas” de abandonados à sua sorte.

Mas, curiosamente, os cidadãos luxemburgueses, que se manifestaram agora contra o actual estado de coisas, fizeram-no de forma sensata e conscientes da sua condição cívica e ao afirmarem claramente aos governantes que: a prostituição só pode ser controlada, se for regulada e não exercida da forma selvagem, como existe actualmente; os drogados devem ser tratados, ajudados e recuperados para a sociedade e não apenas escondidos dos olhares dessa mesma sociedade; os traficantes devem ser banidos, presos e escorraçados, através de uma legislação impiedosa e uma prática policial eficaz e permanente, estes cidadãos demonstraram um elevado nível de moral cívica.

O que os cidadãos dos bairros periféricos da capital quiseram dizer aos governantes foi: basta de hipocrisia social, assim não vamos a lado nenhum!

O que todos os cidadãos do mundo desejam é políticas de verdade e não de avestruz, soluções efectivas para os males sociais e não meras manobras de maquilhagem dos problemas!

Neste caso, e na situação económica particular do Luxemburgo, o que está verdadeiramente em causa não podem ser os recursos económicos para a realização das reais soluções e, a pensar como estes cidadãos o exprimiram, também não é igualmente algum problema de moral social que está a encravar as decisões.

Tivessem outros países e outras cidades do mundo, a braços com o mesmo flagelo, as potencialidades deste País e há muito que caminhávamos para a erradicação definitiva, de uma boa parte desta doença social.

 

Ainda a Casa Pia ! Por Luis Barreira

Quando todos já nos interrogávamos sobre o estado actual do “processo Casa Pia”, deixado de lado pelos grandes títulos da imprensa, eis que o Procurador Geral da República de Portugal, Souto Moura, desenterrou mais algumas críticas à forma como o processo foi conduzido.

Desta vez, segundo ele, o embrólio que tem motivado todo este processo judicial, só foi possível devido à notoriedade dos acusados. Quer dizer que, se fosse o Sr. Manuel da mercearia ou o Sr. Joaquim do talho, o processo já teria sido concluído há muito tempo.

Como também afirma que, pelas mesmas razões, não foram acautelados os interesses das vítimas, pode depreender-se que os acusados foram beneficiados em toda esta tramitação legal, em prejuízo dos miúdos abusados.

É curioso como afirmações desta natureza podem ser bem aceites pela opinião pública. O povo, em geral, fica satisfeito por ver os ricos e poderosos serem igualmente julgados e se os crimes que cometeram, forem sobre crianças desprotegidas das famílias, como é o caso, os nossos sentimentos são ainda mais arrebatadores.

No entanto, estas declarações do Dr. Juiz-Procurador Geral, não podem escamotear outras verdades mais profundas.

Como membro do corpo judicial de Portugal, o Sr. Dr. Juiz sabe perfeitamente que, se os acusados utilizaram a “engenharia jurídica” para complicar o desenrolar do processo, foi porque a lei o permitia e permite!

Independentemente do juízo que cada um faz sobre as culpas de tudo o que se tem produzido neste processo, os advogados de defesa dos acusados não cometeram nenhuma injustiça. Foi a justiça existente que lhes permitiu agir assim e não me lembra de ter visto, até agora, o Dr. Souto Moura a combater as injustiças da justiça portuguesa.

Por outro lado, se os direitos das vítimas deste processo não foram acautelados, pergunto-me o que é que está lá a fazer o Procurador Geral da República, enquanto juiz da causa pública?

De tudo aquilo que se passou até agora, o povo já tirou uma lição: a justiça não é cega ou, pelo menos, não é cega para todos! Há uns, cuja posição social ou a riqueza económica, têm o privilégio de ver todos os “buracos” da lei e outros, menos bafejados pela sorte, que andam completamente às cegas pelos meandros da justiça.

Era isto que o Sr. Procurador deveria ter afirmado. Só que, se o fizesse, corria o risco de ter que pôr em causa, muito da estrutura profissional em que se insere.

Só falta alguém vir à praça pública dizer que, a culpa de toda esta trapalhada jurídica, é dos órgãos de informação e de toda a mediatização que foi feita.

Ainda não ouvi ninguém afirmá-lo de forma contundente, mas tenho a certeza de que não será o Sr. Procurador Geral a fazê-lo, ainda a braços com as fugas de informação para os jornais, por parte do pessoal dos seus serviços e a propósito do processo Casa Pia.

Esperemos que o processo chegue ao fim, sem mais alfinetadas e com a verdade acima dos preceitos administrativos da justiça portuguesa. E esperemos que a imprensa continue a preocupar-se com a divulgação da verdade e não com a criação de “vedetas ocasionais” que, cada vez mais, abundam na vida pública do país que nos viu nascer.

 

CCP sem tostão, nem notícias do governo Por António Cardos

Reconheço que não me apetecia muito « falar » do CCP. Agora que o vice-presidente – que vai ser presidente e, dizem os entendidos, já o era de facto - criou um jornal que se diz “concorrente” do nosso, que o utilize para se auto-promover e para promover os órgãos que dirige.

Estou a brincar, claro, não misturamos alhos com bugalhos, nós somos profissionais, independentes e, sobretudo devemos respeito e ética aos nossos leitores.

Também temos o dever de privilegiar a informação que interessa o público que nos lê e aí temos de aceitar que o CCP não interessa muita gente na nossa comunidade. Por prova não se poderá falar só do número ridículo de votantes que o elegeram porque foram infelizmente semelhantes aos realizados pelos emigrantes nas eleições legislativas e presidenciais no nosso país. Mas bastará interpelar, tal como nós fizemos, umas dezenas de portugueses residentes em França e perguntar-lhes se conhecem esse órgão, para constar que os poucos que já ouviram falar nem sequer sabem para que serve.

Os autores do próximo Orçamento de Estado também parecem desconhecer o CCP ou duvidar da sua real utilidade já que não lhe é atribuído nem mais um cêntimo em relação ao anterior. Mais, segundo afirma a Secção de França, o orçamento do CCP foi “reduzido de 400 pc (?) pelo facto de contemplar uma verba de 150.000 Euros para a realização da reunião Plenária estatutária programada para finais do 1° semestre de 2005 e cujos custos sempre foram providos e contabilizados para além do orçamento inicial

No mesmo comunicado a Secção de França queixa-se igualmente de ter tomado “conhecimento da proposta apresentada para as Comunidades através da comunicação social e não como estaria em direito de esperar, através de consulta ou informação prévia e directa oriunda da Secretaria de Estado das Comunidades ou do próprio Ministério dos Negócios Estrangeiros”. Coitados, nem uma carta receberam !

O documento refere como exemplo, que, “tendo em conta a actividade própria da Secção, cada Conselheiro(a) seria reembolsado de 160 euros pela totalidade das despesas geradas pela sua actividade anual, ou seja, o equivalente a uma única deslocação de comboio entre Lyon e Marselha ou entre Paris e Nantes”. O TGV está cada vez mais caro !

Também o Consul Geral em Londres, João Bernardo Weinstein, demonstra pouca consideração pelo CCP. Segundo afirma o conselheiro no Reino Unido, Gabriel Fernandes, numa reunião com os membros, terá dito queembora os mesmos, no seu entender, não fossem legitimados pela maioria dos portugueses – apenas cerca de 400 votaram – ele ainda assim recebia-os mais uma vez para com eles trocar impressões”.

Não podemos ainda confirmar as declarações do cônsul português num país onde, “a eleição do Presidente da República, teve no Reino Unido cerca de 200 votos, mas com três dias para votar e enormes recursos financeiros para a sua campanha”, refere ainda o documento transmitido à comunicação social pelo conselheiro.

Na altura em que fui “conselheiro do CCP” – nomeado – também nunca me reembolsaram os bilhetes de metro que gastei para me deslocar. Mas era outra época, agora os conselheiros têm responsabilidades acrescidas pelo facto de terem sido eleitos e devem responder pelos seus actos perante quem os elegeu.

Se os eleitores foram poucos, a culpa é exclusivamente dos governos que criaram estruturas para “mandar areia para os olhos” dos emigrantes privando-as em seguida de meios para atingir os objectivos.

Para mostrar o que vale, o CCP só tem uma solução, manifestar. Se conseguir reunir 50.000 emigrantes à frente do Palácio de S. Bento, tenho a certeza que multiplica o orçamento por dez. É muito ? Não, é só 1% dos emigrantes. A Secção de França pode começar por mandar 10.000 – é a mesma percentagem - para a rue Noisiel, a título de experiência.

Brincadeira à parte, há gente de grande qualidade e dedicação no actual CCP e noutros passados, gente que vai perdendo coragem para defender causas que deveriam merecer mais interesse por parte do governo português.

Ficarão sempre os outros, aqueles que se servem do CCP com trampolim para outras ambições. Se calhar é isso mesmo o que os nossos governantes pretendem.

 

Ai Portugal, Portugal,....

Por Luis Barreira

O escândalo da colocação dos professores em Portugal, sim, porque é de um verdadeiro escândalo que se trata, atinge foros de uma verdadeira telenovela de declarações públicas, por parte dos responsáveis governamentais e dos representantes das vítimas.

E vítimas são os cerca de 50.000 professores, sem saberem onde vão ser colocados e os muitos milhares de alunos a quem as aulas faltam, até ao perfeito enquadramento dos seus professores, nas respectivas escolas.

Todos os anos, piores ou melhores, há falhas na abertura das aulas. Todos os anos se repetem acusações, desculpas mal construídas, votos de correcção para o futuro e um encolher de ombros perante as responsabilidades. Se não são os professores, são as escolas, que ainda não estão construídas ou lhes falta equipamento escolar, ou os atrasos na publicação programas, ou nos manuais escolares,....ou,...ou.

Sindicatos e Ministério, de costas voltadas, repetem argumentações, esgrimem com as palavras, apresentam relatórios contraditórios à opinião pública e, no fim, “tudo está bem quando acaba bem”.

Esta história repetida que, por essa razão, poderia encontrar semelhanças com outros fenómenos da sociedade portuguesa, como o dos incêndios, a poluição dos rios, os eternos problemas com o sistema de saúde, ou o caos dos processos pendentes nos tribunais, para não citar outros, podem levar-nos a pensar que, a sociedade portuguesa e nomeadamente os responsáveis pelas instituições, sofrem de um qualquer mal endémico, de uma qualquer surdez social ou de uma incapacidade permanente, que os inibe de resolverem problemas, há tanto tempo detectados e com tantas soluções experimentadas.

Mas não creio que seja uma destas razões, a causa destes sucessivos disparates cometidos e do uso e abuso das más soluções encontradas.

O que me parece é que, na escola política portuguesa, com pouco mais de 30 anos de experiência activa e alargada, sustentada por uma profunda clivagem, entre o governos e oposição, não há lugar à humildade, que deve constituir um princípio base entre pessoas racionais e interessadas no bem público, acima das contradições partidárias. Os vícios trazidos de uma aprendizagem política, baseada: no conflito permanente; no diz que não ao outro, antes de avaliar o que o outro diz; na ausência de procura de consensos, como se tal envergonhasse quem a isso se propõe, na crítica sistemática e avassaladora entre as forças partidárias, impedindo à partida qualquer aproximação, sobre um qualquer contexto. Enfim, toda esta atitude friccionista e “freneticamente acalorada” entre os lideres das forças políticas portuguesas, como se se tratassem de presidentes de clubes de futebol, irá conduzindo o povo português a uma profunda descrença na capacidade dos seus políticos corrigirem os males estruturais da sociedade portuguesa.

E, se já muita gente compara a política com o desporto futebolístico, não tarda muito que as pessoas percam o amor à camisola e estejam sempre a mudar o sentido de voto, em função da equipa que marque mais golos.

Como está na moda os treinadores demitirem-se, quando a equipa perde, não estranho que a Ministra da Educação, que herdou uma equipa e uma táctica de jogo, que não era a sua, se demita das suas funções e crie mais um problema neste acidentado governo.

No fim de tudo isto, o resultado não vai necessariamente ser o melhor para o futuro dos milhares de alunos que, em Portugal, têm um dos mais baixos níveis de escolaridade da Europa e uma taxa de aproveitamento escolar muito abaixo da média.

Assim se vão hipotecando as gerações tão necessárias para o “grande salto” do desenvolvimento de Portugal.

 

O Conselho que (ainda) não temos

Fernando Cruz Gomes (Sol Português)

O tempo voa. Mesmo sem asas, encastela-se por sobre a cabeça dos que (ainda) pensam e só não ensina nada... se nada quisermos aprender. Nas “ondas” da Internet, chega a dar a ideia de que o tal tempo... não tem tempo e surgem “conversas” que só poderão surpreender um que outro incauto. Aos outros, decerto a maioria, já não causa surpresa.

Agora é o Conselho das Comunidades Portuguesas que está em foco. João Machado,  Conselheiro de França, eleito no Círculo de Nogent-sur-Marne, diz que não vai à reunião de 25 e 26 de Setembro e explica porquê. O seu “Porque é que não vou a Lisboa” é, no fundo, um grito de alma que já outros lançaram. E que só não ouve... quem não quer ouvir.

Quando, há uns bons 25 anos, fomos à primeira reunião do Conselho das Comunidades, salvo erro ao Palácio Foz, em Lisboa, ainda havia demasiadas expectativas. Acreditávamos todos – e quem estas linhas traça era por essa altura delegado do Canadá, juntamente com um sacerdote de Kingston, Ontario – que as comunidades iriam ser “bem servidas”. Que era possível acreditar na pureza de intenções do Governo de então. Que, com um pouco de jeito e boa vontade... éramos bem capazes de levar a carta a Garcia. Ajudámos, então, depois de dois ou três dias de trabalhos, a redigir as conclusões e as recomendações. Acreditávamos e João Machado também (se for quem temos na mente).

Como a fé é que nos anima... tínhamos fé. As recomendações iriam ser postas em prática. O Governo – aquele e os outros que se lhe seguissem – ia ter em conta a diáspora. Ia, afinal, entender que somos cada vez menos os 10 milhões de Portugueses, de que se cuida, mas sim os 15 milhões de que também se deveria cuidar. E o Conselho das Comunidades Portuguesas ia, assim, fazer a sua parte.

Pois... Os anos rolaram. Os tempos deram tempo... ao tempo da indecisão. E cinco ou seis anos depois, na última reunião do Conselho das Comunidades Portuguesas, na fase que então era a legal, até a fé nos roubaram. Ficamos sem nada. Estamos sem nada. É que voltámos a ser nós a redigir as conclusões e as recomendações. Mais do que isso... delegaram em nós – e cremos que quem fez mais força foi até a França, face ao “ar humanista” que o Canadá sempre teve  - falar, na sessão solene (que nós nem sabíamos que era a última...) e dizer alto e bom som... que tivemos extrema dificuldade em alinharmos as recomendações porque, em boa verdade, e para sermos coerentes, teríamos de fazer as mesmas que cinco anos tínhamos feito na primeira reunião do Conselho das Comunidades Portuguesas.

Recordamos até que, no final da reunião, o bom do Correia de Jesus, que era então o secretário de Estado, se virou para nós e com um ar quase “sofredor”... nos perguntou ao ouvir tantas críticas formuladas por nós próprios: “Tu... também?!” Cremos bem que ele não entendia, na altura, que ser militante de um Partido não é, de forma alguma, sinónimo de ser amorfo, sem espinha dorsal. Hoje é bem capaz de já o ter aprendido...

Nessas recomendações – há 25 anos – uma das que mais gritante se tornava era do ensino de Português no estrangeiro. E quando o conselheiro de França nos fala... no pouco caso que se dá a esse item... não podemos nós esquecer que, nesta parte do Mundo – Canadá, Estados Unidos, Venezuela, etc. – não se fez “pouco” pelo Ensino. Fez-se “nada”... Faz-se ainda “nada”. O mesmo se pode dizer da RTP onde “triangulação de informação” é desconhecida e continuamos – mesmo com os “Contactos” – a sensibilizarmo-nos uns aos outros, porque não temos direito a ser ouvidos em Portugal. Há, de facto, um divórcio entre os 10 milhões de Portugueses (em Portugal) e os 5 milhões de Portugueses no exterior.

Quem nos acode? – João Machado – seja ele de que quadrante político for – tem razão. Ir a Lisboa para ouvir o que já ouviu... discutir o que já discutiu... e voltar com remorsos de ter perdido o seu tempo... é menos que nada. Não vá. E pena será que outros não lhe copiem o exemplo...

 

Portugal : turismo para “pé descalço” ?

Pour António Cardoso

Este ano fiz turismo em Portugal. Escolhemos o norte (de Lisboa), e fui o guia ocasional de amigos franceses outorgando-me o direito e o dever de lhes mostrar a nossa diversidade geográfica e a riqueza histórica e patrimonial do nosso país.

Quis sobretudo que descobrissem um Portugal diferente daquele que já conheciam, diferente das praias do Algarve ou da costa lisboeta.

Óbidos, Alcobaça, Batalha, Nazaré, as Berlengas, Coimbra, Mesão Frio, Régua, Pinhão, Alijó, Foz do Tua, S. João da Pesqueira, Trancoso, Celorico da Beira, Castelo Branco, Monsanto, Termas de Monfirtinho, foram alguns dos locais de paragem ou de rápida estadia escolhidos.

Como não podia deixar de ser, os amigos ficaram subjugados com tanta beleza natural, atónitos com a diversidade e diferenças paisagísticas de um quilómetro para outro, mas sobretudo, não escondiam admiração pelo vasto e rico património cultural que o nosso país possui.

Sem reservas efectuadas previamente, as dormidas era onde havia lugar. Tivemos do melhor e provavelmente do pior que existe em Portugal. Diverti-me a vislumbrar nos rostos a satisfação ou o desapontamento dos meus companheiros de viagem sobre a qualidade do serviço hoteleiro.

Neste aspecto somos diferentes dos franceses. Para a grande maioria de entre nós, desde que o prato esteja bom, o resto tem pouca importância. Para eles, é o conjunto, e têm razão.

Portugal ainda não está suficientemente preparado para acolher turismo em massa das classes médias.

Do lado negativo, o hotel, bar, restaurante da Berlenga, “Pavilhão Mar e Sol”, o único da ilha, é um exemplo : À pergunta do simpático rapaz que servia no bar, “em que copos sirvo o Martini ?” , um indivíduo mal encarado com ar de capataz respondeu-lhe, à minha frente, “nos copos de cerveja”.

- Tem a certeza que o Martini é para servir em copos de cerveja ? perguntei ao tal energúmeno.

Virou-me as costas com desprezo evidente e desapareceu no interior do estabelecimento.

-         Desculpe, só estou aqui durante as férias para ajudar o patrão, é o meu tio, mas este indivíduo é que manda... disse o rapaz constrangido.

Outro restaurante, o da pousada Mestre Afonso Domingues, que mereceria ser deslocado para a periferia da Batalha está situado de forma estupenda em frente ao mosteiro. A empregada, visivelmente chateada por ter clientes, proibia-os de forma peremptória, logo à entrada, de utilizar as casas de banho, segundo ela avariadas, indicando as do parque exterior. Para que fosse mais claro, duas cadeiras barravam o acesso.

Até podia ser verdade, mas foi pela forma desagradável utilizada pela tal empregada que um grupo de dez pessoas já não quis ficar para almoçar preferindo outro restaurante e outras casas de banho.

Quanto a nós, seguimos as moscas e o mau cheiro para utilizar as “toilettes” da vila e esperámos 30 minutos para conseguir o descongelamento de uns pregos e bifanas que batalhámos para roer.

Em Outubro “falaremos” de alguns dos bons sítios onde fomos bem acolhidos e que nos enchem de orgulho pela nossa aptidão de saber receber. Este era uns dos nossos principais argumentos para captar o tal turismo das classes médias. Se o perder-mos arriscamo-nos a conservar e a desenvolver o outro, o do “pé desclaço” como dizem os algarvios. De quem é a culpa ?

 

Quem não honra o Passado… não merece ter Futuro

Fernando Cruz Gomes

Arganil elevou-se. Cresceu. Agigantou-se, mesmo, no conjunto das cidades e vilas que têm da gratidão um conceito nobre. E isso deve encher de orgulho as gerações que andam agora pelas escolas a preparar-se para o futuro. É importante que os nossos mais novos aprendam que “quem não honra o Passado... é bem capaz de não merecer o Presente e o Futuro”. A frase, de que desconheço o autor, salta-me à mente, ao ler, preto no branco, que a típica vila beirã acaba de homenagear os que “da lei da morte se libertaram”, cumprindo galhardamente o seu dever, quando em combate, pela Pátria, estiveram no (então) Ultramar Português.

É que, eles, os combatentes, cujo nome ficou escrito na pedra do monumento agora erguido, no Bairro do Sobreiral, cumpriram a sua parte no dever de defender a Pátria. Talvez com um conceito diferente daquele que hoje, pelos vistos, se defende e se canta. Mas... um conceito nobre. Talvez repetido, uma que outra vez, pelas mães beirãs que, mesmo chorando o desgosto de os ver partir, entendiam o chamamento da Pátria. Entendiam-no e inculcavam-no na mente dos que partiam, alguns para sempre.

Arganil, concelho nobre, cumpriu com nobreza, o dever de ser grata. Mais do que isso, deixou exemplo a muitas nobres cidades e vilas que ainda se envergonham dos seus heróis, manietadas por não sei que birras mentais que ainda há. Arganil cumpriu.

Não estive lá, frente ao monumento, para saudar naqueles todos quantos, em terras que eram portuguesas – e onde nunca o sol se punha... – combateram o bom combate e escreveram heróicas páginas de uma História que não envergonha os vindouros. Bem ao contrário. Em meu nome, decerto que em meu nome, familiares por ali estiveram. Sim, porque entre os nomes dos que tombaram “lá longe”... figurava o nome de um irmão que ainda não consegui esquecer. Sebastião José. A quem vi, vezes sem conta, a falar no seu mister às filhas que então nasciam... e que também estiveram presentes.

Se eu lá estivesse, era bem capaz de rebentar em pranto. Sobretudo a lembrar-me de uma “velha senhora” – nobre e altaneira em sentimentos, que só esses contam – a aconselhar aos filhos o cumprimento da sua missão patriótica. Uma mãe que descansa agora, lá por cima, em cemitério de aldeia, onde já os pais descansavam. Essa mãe... é, afinal, igual a tantas outras. Das que estiveram na cerimónia do Bairro do Sobreiral. Que, à sua maneira, ajudaram a levantar bem alto o nome do velho Portugal... que cada vez se deve orgulhar mais das páginas que escreveu em países... que eram, então, Portugal.

A homenagem aos combatentes, que Arganil achou deveria fazer, foi também – pelo menos para mim, cá longe da terra – homenagem à mãe sofredora. Que abençoava, um a um, os filhos que iam para a guerra. Cumprir o que então se pensava ser um dever. Que era mesmo um dever. A despeito de muitos pigmeus de hoje entenderem que não.

Arganil cresceu. Agigantou-se. É já hoje maior. Cumpriu um dever de gratidão. E como  “quem não honra o Passado não merece ter Presente nem Futuro”, Arganil está a crescer ainda mais.

 

Coitado do Zé Maria

Fernando Cruz Gomes

As sociedades têm destas coisas. Enrolam-se em contradições, vociferando paixões que nem sempre o são. Deixam, no ar, imagens que, inatingíveis, já que ireeais, metralham os corpos daqueles que se deixam iludir no jogo do faz-de-conta. Acredita-se muito no que se vê na Televisão. E nos Filmes. Abomina-se o normal viver. E sonha-se com... situações que às vezes não passam de simples miragens.

Helena Sacadura Cabral contava, há dias, no DN de Lisboa, que Zé Maria, o vencedor do primeiro Big Brother nacional, foi há dias impedido por elementos da Brigada de Trânsito de se atirar da Ponte 25 de Abril. O candidato a suicida foi depois levado para um Hospital e depois para o outro, que achou que ele estava “bom” e deixou que ele reentrasse, novamente, na tal sociedade de onde se queria afastar.

Passadas algumas horas, já o bom do Zé Maria andava nu pela Avenida 24 de Julho. Nuzinho de todo. Como a mãe o trouxera ao mundo. Internado, novamente, no hospital, chegaram os médicos à conclusão mais do que lógica de que ele deveria ser  internado num Hospital para doentes mentais.

A história só não termina aqui, por se revestir de contornos tristes e mais tristes parecendo. A darem a entender que os Big Brothers da nossa angústia são capazes de transformar um homem simples, humilde e até digno num farrapo humano onde as coisas más só não acontecem por haver quem… sirva e proteja. O Zé Maria é, mesmo assim, exemplo. E exemplo que não pode deixar de ser sopesado. É que deram à sua mente um “escape” demasiadamente irreal, que ele não soube destrinçar. Deram-lhe uma notoriedade para a qual não estava preparado.

Os valores da sociedade que criámos – todos nós, como importa não esquecer… - pautaram na mente do Zé Maria uma psicose que o traumatizou. Deram-lhe a entender ser… o que não era. De simples jovem mais ou menos anónimo de Barrancos passou a ser um vencedor. Um vencedor que muitos milhares de pessoas idolatravam. Vencedor sem cuidar de entender – porquê não sabemos – que tudo aquilo era efémero e passageiro. Que não era real. Que a sua vitória era, afinal, fruto de ingredientes que não pesavam na balança certa de uma mente equilibrada.

A sociedade tem destas coisas. A sociedade, nas suas fronteiras reais, não disse ao Zé Maria que não levasse muito a sério tudo aquilo. Que a Televisão e o Cinema só mostram os “melhores” – mesmo que feitos de um barro menos bom – porque as audiências exigem isso. Que as trombetas da fama só tocam quando é necessário dar uma ideia demasiadamente risonha do mundo… para efeitos de comércio.

Os “momentos de glória” por que muitos passam – em Toronto como em Lisboa e na China como na Venezuela – são apenas fugazes. Para se tornarem famosos, os nossos Zés Maria fazem o que for necessário.  Homens e mulheres transformam-se em “palhaços” que até têm de rir para não chorar… a troco desses tais momentos de glória. Depois… é o sonho inatingível. Sonham ser jornalistas, apresentadores, actores. Alcandorados aos galarins da fama, julgam-se mesmo aquilo que não são.

A seguir, para alguns, vêm as tentativas de suicídio. As excentricidades. O querer ser, à força, aquilo que se não é. Talvez para manterem os tais momentos de glória que não souberam entender. Vêm, afinal, as “contas da modista”, já que é preciso pagar, e com juros, a glória para a qual se não estava preparado.

Coitado do Zé Maria! Deste… e dos muitos que enxameiam as nossas comunidades. E que não conseguem entrar no jogo do faz de conta. Sem pensar que tudo aquilo é mesmo irreal. Coitado do Zé Maria!

 

 

Portugueses, um povo “desenrascado”!

Luis Barreira

Acabaram-se as férias para muitos de nós e, para muitos, renovaram-se as saudades pela gente da terra, que continua viva e feliz, pelos campos que não arderam, pelas praias que não estão poluídas e pelo sol,... quando não fazia “caretas”!

Para aqueles que raramente vão a Portugal é também motivo de orgulho as grandes obras que entretanto se fizeram, as necessárias e as outras, aquelas de usufruto temporário, cujos montantes investidos, poderiam dar para resolver muitas das assimetrias do nosso desenvolvimento.

Outro aspecto que nos impressiona, é o notável apetite das nossas novas gerações pelas novas tecnologias: os últimos gritos de telemóveis; os novíssimos computadores “XPTO”; os carros de grande cilindrada, que se amontoam nos stands e o “xiriri” dos televisores de écran plasma e as aparelhagens sound, de último modelo. É impressionante ver toda a gente interessada em consumir o conforto do futuro, num presente insuficiente.

Mas o mais curioso e que nos deixa tantas vezes estupefactos, é a observação de que quase toda a gente se queixa: “isto está muito mal,..”, “..o negócio não dá nada...”, “não há trabalho...”, “...estamos cada vez pior...”, mas vamos encontrá-los mais tarde, alegres e sorridentes, à mesa de um restaurante ou às compras em lojas chiques.

Naturalmente que não são todos e a crise não é virtual. Muitos vivem mal e o seu mau estar económico é bem real. No entanto, a vida social, é cada vez mais comandada pelas aparências.

A surpresa vai para além dos limites com a nossa modernidade urbana rural. As pequenas vilas e muitas das aldeias, têm já um ar lavado, bons restaurantes, em vez de tascas, ruas floridas, em vez de amontoados de lixo e muito pouca gente, porque há muito pouco trabalho e, em consequência, é preciso partir. Mas os que ficam, nomeadamente os mais jovens, têm hoje à sua disposição enormes discotecas e grandes centros comerciais (onde tudo se compra a prestações), para passear ao domingo e gastar uns “cobres”, do orçamento familiar, em cocktails exóticos e em roupas de grandes marcas.

Já nada é como dantes! Já não se cosem meias, não se disfarçam colarinhos gastos, não se manda pôr meias solas, não se reparam rádios ou televisores, não se repintam os carros, não se come em tascas (salvo as que são caras), nem se leva o farnel para a praia.

A Europa é que nos ensinou e a Europa também somos nós, caramba!

O que é que nos interessa se o PIB, de Portugal, já é mais baixo do que o da Grécia e cada vez mais longe do espanhol? Não temos culpa!?...

O que é que nos importa se há muito desemprego? Talvez com o subsídio de desemprego e o “biscate” se ganhe mais!?...

Que nos interessa haver pouco dinheiro no bolso? Temos o Visa!?::: As pessoas têm direito a férias e até parece absurdo não sair do País, o que é que diriam os amigos?...

Porque é que devemos estar sempre a carpir as mágoas por causa do déficit, da burocracia das instituições, dos problemas da justiça e da injustiça, dos impostos que muita gente não paga, da desorganização e falta de meios para combater os fogos, da pouca produtividade das empresas, do partido A e do partido B? O País esteve de férias e o governo também!

É preciso descansar para voltar a embaralhar e dar de novo e, nesse sentido, parece que as melhores conversas para férias, são aquelas que nos fazem rir e sonhar, do género: a “Cindinha”, que deu uma festa nos seu palacete; o ministro X, fotografado com uma actriz X; o tipo que roubou as K7, ao tipo que roubou as declarações do amigo; o novo visual da casa do casal mais badalado da praia dos tomates; o barco do desamor, que não atraca nem ataca; a festa da sardinha, do marisco, do chocolate e do pão de ló e, se houver tempo, fazer as palavras cruzadas dos jornais.

Com todos os exageros que este comentário contém, há algo de verdade repetida, em tudo o que antes foi dito, o que me leva a considerar que, de facto, os portugueses,... são um povo “desenrascado”!

 

Chama, filha… antes que te chamem!

Fernando Cruz Gomes

No coração do Governo Português… vai uma “guerra” à antiga. É, agora, a “guerra das secretárias”. Uma “guerra” que não tem vencidos nem vencedores, mas que já tem “arranhões” a dar com um pau. É que, pelos vistos,  José Sócrates, que está fadado a ser secretário-geral do PS, foi para a Informação de lá a mostrar-se indignado por que Santana Lopes tinha, agora, não sei quantas secretárias (14 ao que parece). Número exagerado, segundo aquele putativo (?) secretário-geral “rosa”.

Pelos vistos, e segundo uma fonte de São Bento, o actual primeiro-ministro tem, de facto, uma chefe de gabinete, 14 adjuntos, 10 assessores e… 14 secretárias. Só que, em termos pessoais, o primeiro-ministro só tem duas secretárias, estando as restantes nas diversas assessorias, que fazem parte do gabinete. Pois. Só que, comparativamente a… António Guterres, Santana Lopes é um “unhas de fome”. Poupa muito. É que António Guterres  tinha um chefe de gabinete, 17 assessores, 18 adjuntos e… 23 secretárias! É obra! O que significa é que é preciso, às vezes, dar força ao conceito popular: “filha… chama antes que te chamem…”

E mesmo que as secretárias de António Guterres não fossem todas pessoais, o número de assessores, adjuntos e secretárias vai para além do que está estabelecido na lei orgânica que dá cobertura ao pessoal do gabinete do primeiro-ministro. Que autoriza, tão somente, um chefe de gabinete, 10 assessores, 15 adjuntos e… 20 secretárias.

Tudo visto, a Lei, que é agora invocada em vão, permite 46 membros no gabinete do primeiro-ministro. Santana Lopes só tem 39. Guterres foi para além do que está determinado, pois tinha 59!

O pior é que quem gritou o tal “agarra… que é ladrão”, o sr. Sócrates, tem igualmente um historial pouco abonatório no que toca a gastos. O secretário de Estado adjunto do Ambiente, Moreira da Silva, diz, nas páginas dos Jornais, que o candidato à liderança do PS não tem “legitimidade moral” para chamar despesista ao actual Governo. E não tem, porque quando Sócrates tutelou o Ministério do Ambiente, foi responsável pelo aumento de oito milhões de euros só em salários de administradores das empresas multimunicipais de águas, resíduos e saneamento ligadas ao grupo estatal Águas de Portugal.

Pelos vistos, e sempre segundo
Moreira da Silva, Sócrates enquanto ministro do Ambiente de António Guterres, criou três novas direcções-gerais; as empresas muncipais de água, resíduos e saneamento ligadas à Águas de Portugal passaram de 11 para 63, enquanto o número de administradores cresceu de 30 para 169. Em termos financeiros,  os custos com os salários destes administradores representou um salto de 2 milhões de euros anuais para 10 milhões.

Chama, filha, antes que te chamem…

 

Durão Barroso está a “agradar…”

Devagar se vai ao longe

Fernando Cruz Gomes

O barco onde, de momento, Durão Barroso é o timoneiro, não navega em águas calmas. E isto, mesmo sabendo que as notícias de que vamos dispondo dão conta de que a Imprensa internacional, especialmente a relacionada com a Europa, está a adoptar um tom bem mais cordato do que no princípio, quando se refere à actuação de Durão Barroso. Há mesmo elogios. Apreciação positiva. Alguns jornais chegam a tecer comentários que classificam o antigo primeiro-ministro português como muito melhor que o seu antecessor Romano Prodi. O que nem parece difícil por muitos e bons motivos que nos abstemos de enumerar.

E o que é que mudou na actuação de Durão Barroso, que chegou a ser considerado “fraco” e “passível de ceder sempre às grandes potências”? – A verdade é que, quando da formação do “governo europeu”, com os comissários que tinha de recolher, mais do que escolher, o presidente da Comissão Europeia tentou apaziguar tudo e todos. O seu gosto pelo consenso veio ao de cima. Isto é, os que esperavam que ele cedesse só aos parceiros mais poderosos enganaram-se, como se enganaram os que acreditavam que seria o “padrinho” dos países mais pequenos. Não há, pelos vistos, comissários que possam ser considerados de primeira ou de segunda. Parecem fazer um todo, com os 25 países a estarem igualmente representados, sem uns cantarem de “poleiro” e outros serem apenas os que servem para… dar cor à comissão agora posta de pé.

Durão Barroso é capaz assim de ter conseguido uma primeira vitória. Parece ter o respeito de todos. Ou de quase todos, porque em Portugal ainda há meia dúzia de cépticos que vão a correr apanhar as canas que porventura tenham caído de alguns “bruás” que se chegaram a ouvir e que eles próprios engendraram. Há, de facto, portugueses – e mesmo na nomenclatura oficial, quer ela seja de oposição ou de governo – que ainda não entenderam que é possível cumprir mandatos com um certo equilíbrio e até distanciamento do que pareceria cedência ou submissão.

Claro que a procissão ainda agora vai no adro. E há problemas deste ou daquele país – específicos mas a poderem transbordar para fora, para os agora parceiros da UE – que podem transformar-se em dores de cabeça  quase permanentes. A Alemanha, por exemplo, está de momento a pegar no seu mercado laboral e a imprimir-lhe uma dinâmica diferente. Ali, ainda que timidamente, há empresas que estão a passar das 35 horas semanais de trabalho… para as 40 horas. E passam a barreira ameaçando que, se assim não for, terão de alterar as condições de produção ou fechar mesmo a… fábrica, quando não a de a mudar para outro país agora “irmão”. Idênticos “ventos” parecem soprar na dinâmica empresarial da França, com a Bosch, por exemplo, a ganhar um certo braço de ferro com o Governo e com os sindicatos.

Em toda a parte, a ameaça de que, se não houver cedências, as unidades fabris podem mudar para um outro país da Europa, agora alargada a 25. E isto, que legalmente é possível, seria grave.

Resta saber até que ponto Durão Barroso e o seu colégio de comissários conseguem entender estes “novos ventos” e conciliá-los com a necessidade de fixar empresas nos países mais desenvolvidos. Mais um desafio. Que nem é único, entendamo-nos.

Depois… há os números do desemprego a atrapalhar todas as negociações. É que na Alemanha como na França…há mais de 9% de desempregados. O que não permite a tal recolocação das empresas, sob pena de haver desordens sociais. Como na Espanha e na Grécia onde os números são ainda mais alarmantes. Consensos… precisam-se.

 

Entregues à sua sorte

Fernando Cruz Gomes

O Governo de Santana Lopes está a andar. Mexe-se. Esbarra, a toda a hora, com escolhos que a perspicácia do timoneiro tem vindo a evitar ou a “explicar”. E isso, que é verdade para a esmagadora maioria dos temas que lhe cairam nas mãos, nos últimos dias, não o pode ilibar de algumas críticas que, naturalmente, já lhe vão fazendo.

Sectorialmente, há até razões para um “safanão” que o Pedro ainda não deu. Um “safanão” que obrigue as hostes ministeriais a acordarem para realidades que só não são vistas por quem não quer ou é completamente cego.

Na secretaria das Comunidades Portuguesas, está agora Carlos Alberto Gonçalves. A despeito de acreditarmos que o timoneiro-mor conheceu o “dossier” da escolha, não andaremos muito longe da verdade se dissermos que a proposta coube ao ministro dos Negócios Estrangeiros. Uma escolha que foi acertada e que importa ajudar agora a que não se transforme em... desacertada.

António Monteiro, a despeito de ter andado por toda a parte, é um homem da Europa. Carlos Gonçalves é “só” um homem da Europa. E ainda não há muito, na sua mensagem às comunidades, “cheira-se” à légua o empenho do novo secretário de Estado em olhar para a Europa e para os portugueses da Europa com uma simpatia por demais evidente. Mesmo que o não diga, para Carlos Gonçalves, a emigração está na Europa. E na sua mensagem – a que quase nos atreveríamos a chamar de Carta Aberta – deixa subentender que vamos ter a sequência do muito que tínhamos, nos últimos tempos. Europa “a la large”.

Entendemos, cada vez mais, que os portugueses residentes nos países fora da Europa estão entregues, pura e simplesmente, à sua sorte. Não há programas ou estudos que tenham a ver especificamente com o “resto do mundo”. E ainda agora, quando se estudam os problemas do Ensino de Português no Estrangeiro... se anota que a Europa dá cartas. Manda. Estudam-se as questões do ensino de Português à medida da... Europa, esquecendo-se os “cérebros” do Governo que, no resto do mundo – onde haverá tantos portugueses emigrados como na Europa – não há nada. O ensino é deixado aos pais e, quando muito, à boa vontade de alguns Governos. Na Europa, a despeito das dificuldades, o ensino de Português é quase totalmente dependente do Governo Português.

Já uma vez dissemos – e nem fomos os primeiros, claro – que “à mulher de César não basta não ser... prostituta”, já que “é preciso não parecê-lo”. E, neste como em vários outros casos, parece que o Governo Português está a fazer discriminação doentia e penalizadora. “Tudo” – e é pouco – para a Europa. “Nada” – nada mesmo – para os países fora da Europa, com excepção, ao que parece, da África do Sul. Isto é o quê?

Os “cérebros” das Necessidades têm de virar os olhos – pelo menos os olhos... – para os países onde o poderoso Inglês ou o activo Espanhol... estão a avassalar o Português. Sob pena dos nossos filhos e netos chamarem aos governantes de hoje – poderem chamar... – exterminadores da Língua Portuguesa nos Estados Unidos, no Canadá, na Venezuela, etc. E isso tem de ser JÁ.

 

 Á volta cá vos espero!...

Por Luis Barreira

Meus senhores,...as férias estão aí! E, com elas, vem também aquela sensação de evasão aos problemas quotidianos, quer sejam os nossos, ou os dos outros.

Nossos, são os problemas do desemprego e a sua ameaça, mesmo para aqueles que estão empregados. É o inevitável aumento das contribuições para a Segurança Social e Caixa de Pensões, afim de aumentar as necessárias receitas para cobrir o déficit destas instituições, pagar os subsídios de desemprego, a uma população cada vez maior e assegurar (se for possível...) a nossa reforma futura.

Nossos, são também os problemas das ameaças terroristas e das guerras, que nos fazem temer pela própria vida quando nos deslocamos, trabalhamos ou simplesmente confraternizamos. E as guerras, que nos flagelam os sentimentos, dando-nos conta do sofrimento atroz de tantas populações desprotegidas, de tantas mortes inúteis, de tanta dor causada por interesses particulares e criminosos.

E mesmo que a esmagadora maioria de nós disponha de comida suficiente, a fome e da miséria no mundo, a níveis assustadoramente crescentes, é também um problema nosso e, cedo ou tarde, acabará por atingir-nos, (se não atinge já...), com as populações dos países mais pobres, a procurarem abrigo junto das nossas sociedades e a assistirmos quotidianamente à sua expulsão, como se tivéssemos vergonha de dividir com elas o que tantas vezes esbanjamos.

Mas também é nosso o problema do crescente aumento do custo de vida, quer ele seja provocado pela especulação imobiliária, que coloca as rendas de casa a preços proibitivos ou pelas grandes multinacionais do comércio, que pagam miseravelmente aos produtores dos países chamados do 3° mundo e que enriquecem desmesuradamente com os preços praticados ao consumidor

É nosso, igualmente, o problema da educação dos nossos filhos, de um sistema escolar inadaptado à inserção dos profissionais jovens adultos, de uma discriminação baseada nas condições sócio-económicas das famílias, da falta de educação em referências morais e cívicas, que permitam formar adultos saudáveis e activos para a vida em sociedade, dando-lhes motivos sérios para não resvalarem no macabro sonho da droga.

A saúde pública é igualmente um problema profundamente nosso. Dos alimentos produzidos em más condições sanitárias e sujeitos a adulterações químicas ou genéticas, que provocam doenças transmissíveis ao ser humano, aos hospitais, tantas vezes autênticos centros de propagação de vírus, para acabar mergulhando neste enorme flagelo da Sida, com milhões de pessoas infectadas e aguardando desesperadas a morte, perante a passividade das multinacionais farmacêuticas que poderiam vender, a um muito menor preço, os medicamentos que asseguram, não a cura, mas a estabilidade da doença, a nossa preocupação com a saúde pública é cada vez mais intensa.

Também os continuados incêndios nos tocam de perto e nos afectam a alma, perante a ineficácia dos meios para os combater e a indulgência das instituições face aos pirómanos, (ao serviço da sua loucura pessoal ou de desígnios inconfessos), uma situação que vem queimando a mancha verde do planeta, tão essencial ao ciclo de vida do que partilhamos e cuja reconstituição demora gerações.

Se a chuva não cai onde deveria cair, ou cai de forma que não deveria, é também um problema nosso e do modelo de civilização sem regras onde nos inserimos, deixando que os grandes grupos de interesses comandem o modelo de desenvolvimento que lhes convém, poluindo a atmosfera e alterando o clima, com consequências finais imprevisíveis para a humanidade e algumas já previsíveis, para não dizer bem reais e actuais.

Mas nesta lista, muito sumária, dos nossos problemas, onde é que estão os problemas dos outros?

Pois é meus amigos,...este mundo globalizante, que aceleradamente construímos, já não há problemas nossos e dos outros , há problemas de todos.

E, pese embora a aproximação das férias e com elas um descanso merecido e ausente de preocupações, é bom aproveitar este indispensável período de inactividade profissional, para reflectir nos problemas,... que não vão de férias.

Debaixo de um pinheiro ou sobre a areia quente de uma praia, descanse mas,... não deixe de pensar.

Á volta cá vos espero!

 

De vez em quando...

Por – Victor Alves

24horas – Portuguese Daily Newspaper

 

Foi  magia!

      A canção “Foi magia”, não teve grande sucesso no apuramento das canções escolhidas, não sendo assim classificada para nos representar na Turquia, no Festival da Eurovisão, há dias transmitido e assistido por muitos milhões de pessoas.

      Ao mesmo tempo em que este extraordinário evento musical, cheio de luz e cor acontecia na cidade de Istambul, no extremo oriente, na longínqua ilha de Macau, um punhado de portugueses, de lapiseira na mão e máquina fotográfica ao ombro, (alguns até tinham câmaras de vídeo e de televisão), esgrimiam com os representantes do governo português, (dois Secretários de Estado), aproveitando o convite para o III Encontro da Comunicação Social, a concretização da criação de uma associação internacional de jornalistas. E assim, nos intervalos da ordem de trabalhos de uma agenda intensa e curiosa, onde tudo foi positivo, foi-se tratando de reunir consensos, para que a sonhada associação tomasse corpo e principalmente ganhasse pernas, para iniciar uma caminhada de desafios, regidos pela independência, que uma classe como  é a dos jornalistas merece e deve ter. Como sempre, houve vozes discrepantes, defendendo interesses pessoais, mas ao fim e ao cabo, consegui-se o tal consenso que os mais “velhos” há tanto tempo ambicionavam – a criação de uma associação de jornalistas ou de órgãos da comunicação social da diáspora, (a nomenclatura para já é o que menos interessa). Como sempre também, houve os mais activos, os mais observadores, os mais cépticos, os mais negativos, o que obviamente provocou a discussão, (que quer dizer troca de idéias), para finalmente e tendo como moderador, (quem diria), o Secretário de Estado das Comunidades, apoiado pelo Secretário de Estado da Presidência e também responsável pela tutela da Comunicação Social.

      Não podia ter havido melhores padrinhos.  Foi magia! 

      Propositadamente não são aqui mencionados nomes, na medida que a vitória desta luta antiga é de todos.

      Espalhados pelo mundo, de caneta na mão, ou atrás de uma máquina de escrever, de um computador, de um microfone, de uma câmara de vídeo, de televisão ou de fotografia, são os que unem através da língua, continentes, países, regiões e comunidades ao seu País, como se de um cordão umbilical se tratasse. E sabe Deus, quantas vezes lutando com falta de condições, usufruindo parcos salários, sofrendo críticas e pressões de pessoas e sistemas antagónicos...

      Assim, não deve haver heróis, protagonistas ou  destaques, porque a vitória é de toda uma  classe.

      A magia não aconteceu na Turquia, mas sim na China, na tépida e fascinante ilha de Macau.

      Realmente... foi magia!

 

Mais apoios à Associação Internacional de Jornalistas

  A iniciativa de fundar a Associação Internacional de Jornalistas tem sido muito aplaudida. Mesmo em cerimónias a que muitos de nós, na sua vida profissional, têm de assistir, há quem levante a questão para nos dar os parabéns pela decisão tomada, insistindo às vezes em que só peca por ser

tardia.

  Depois do apoio explícito, por escrito e de viva voz, dos deputados Eduardo Moreira e Carlos Gonçalves, surge agora Manuela Aguiar a testemunhar o seu apreço pela ideia, realçando, especialmente, o mérito que terá de ter pelo facto de ter nascido no próprio meio dos Jornalistas, o que lhe dá uma "força redobrada".

  Aquela deputada social-democrata fez questão, designadamente, de levantar o assunto na reunião dos conselheiros das Comunidades Portuguesas, nos Estados Unidos, e durante uma conferência da Mulher Migrante, em Toronto.

  Insistiu dizendo que o facto de só agora se manifestar publicamente se deve à certeza que tinha (e tem) de que todos os jornalistas da Associação conhecem a sua maneira de pensar neste aspecto e sabiam que, como deputada e como cidadã, estaria connosco.

FCG

 

Em Sexta-Feira Santa... AIJ distribui “amêndoas”

Fernando Cruz Gomes

Para o nosso Povo, maioritariamente católico, a Sexta-Feira Santa é de martírio. É o martírio da Paixão e Morte do Homem Grande. A Glória vem só depois... na Páscoa da Ressureição.

Para nós, membros da Associação Internacional de Jornalistas, as “amêndoas” começaram a chegar mais cedo. Numa iniciativa do nosso secretário-geral, o António Cardoso – quem mais poderia ser? – começaram a ser enviadas, para eventual aprovação (que, ao que se crê, todos vão aceitar), os cartões de membros da Associação. Uns cartões bonitos e bem ao estilo “formal” da nossa gente da Imprensa. E isto em plena Sexta-feira Santa.

Ao presidente da Comissão Instaladora – que não foi tido nem achado para isso (o que até daria para protestar...) – deram a “amêndoa” maior, quando lhe atribuiram o número 1. Interpretação? – Só uma: o homem já não é novo, traz nos olhos as mensagens jornalísticas de vários continentes, fez-se gente nos Jornais, na Rádio e na TV. Combateu o bom combate das nossas lides. Assim, os promotores da numeração... entenderam que deveria ser ele a ostentar o nobre número primeiro da A.I.J. Talvez porque, como pode não durar muito, abre caminho aos outros... mais jovens.

Ele (eu), presidente pela vontade dos primeiros membros fundadores, agradece. E “perdoa” não ter sido... tido nem achado para a atribuição da honra.

Entendemos, cada vez entendemos mais, que estamos a andar. E que a Nossa Associação Internacional de Jornalistas vai seguir em frente. E vai ser útil, especialmente, a uma classe como a nossa que nem sempre foi acarinhada como merece. E que serve – continua a servir – de bandeira de apoio aos que, um dia, deixaram o país de origem... e continuaram, no entanto, a ter Portugal no coração.

Ah, já me esquecia. O Presidente da Comissão Instaladora da Associação deseja a todos os membros e à comunidade da diáspora, em geral, FELIZES PÁSCOAS. Mesmo que não tenham “amêndoas” e que ainda não tenham recebido a que a nossa Secretaria-Geral começou agora a mandar.

 

Os “omniscientes” de meia tijela...

Fernando Cruz Gomes

Justiça ou não, começam a surgir um pouco por todo o mundo os “justos” de todas as nossas praças. E mesmo atendendo a que a qualidade de justiça acaba por ser cada vez mais subjectiva (dependendo do ponto de vista de cada um), há uma regra comum: bater no Jornalista... resulta.

No pedreiro, que alinha a casa menos bem ou no padeiro que faz um pão demasiadamente tostado, é hábito deixar passar... Pode até alardear-se toda uma série de desculpas. O homenzinho estava cansado, zangou-se em casa com a mulher, entendeu mal o remoque do chefe, o seu clube até perdeu...

Para o Jornalista, de uma forma geral, não há perdão. Ele escreveu isto ou aquilo porque é malandro. Não sabe o que diz. Entendeu mal o discurso de X ou Y. Quis, afinal, pôr-se em bicos de pés e tirar partido do facto de ter nas mãos um orgão de Informação que é visto ou ouvido... por milhares de pessoas.

São, de facto, uns malandros estes Jornalistas! Imaginem, até, que na diáspora há uns quantos que, ou não têm curso algum ou “escrevem com os pés”. É que, de facto... o Zé Leitor, o Zé Ouvinte... sabe da poda. Não lhe custa nada pôr-se na pele do Jornalista. Acha que ele, sim, é que é bom... e tão bom é que sabe que o escriba... não soube fazer o seu trabalho.

Nas nossas queridas comunidades – na França como no Canadá e nos Estados Unidos como na Alemanha – há, naturalmente, Jornalistas e Orgãos de Informação. E ao dizerem-se comunitários... têm logo o labéu de serem mal feitos, de não terem interesse, de não terem sumo. Porque, também nessas e noutras comunidades, há sempre um grupo de “omniscientes” criaturas... que sabem tudo. Tudo... até fazer Jornais e falar na Rádio ou na Televisão. E tanto sabem... que vão zurzindo – e às vezes pouco meigamente – os que fazem do Jornalismo a sua profissão... ou a sua paixão. E ao zurzirem os ditos cujos... fazem-no com desamor, sim, mas a darem-se ares de que “daquilo sabem eles...”

São, de facto, uns omniscientes. E às vezes chega até a dar pena que... os Governos os não consultem. Que os directores de Hospitais não lhes peçam conselhos. Que os Cônsules não os ouçam... antes de tomarem esta ou aquela atitude. Sim, porque “omniscientes” são eles!

Jornais. Jornalistas. Nas comunidades... são pouco menos do que heróis. Escolheram para viver... um modo de morte. E quanto a dinheiro... ganham muito menos do que um homem da construção ou uma mulher da limpeza. Para além disso, quer o homem da construção ou a mulher da limpeza... conseguem ler os Jornais e ouvir a Rádio e a Televisão e, acto contínuo, atirar com a frase de que “estas bestas... não sabem o que fazem...”

Jornais. Jornalistas. A nossa querida gente não gosta deles. Ainda um dia haveremos de descobrir porquê. Talvez porque... há sempre um “poderoso”, um “rico” ou um “governante” que queira sempre ter a seu lado... um desses “bichos tontos” que se chama Jornalista. Podemos não ter dinheiro... mas os “grandes” querem a nossa colaboração. Mendigam-na. Mesmo que, depois... paulatinamente, enveredem no coro dos que acham que o Jornalista é mesmo “uma besta... que não sabe o que faz”.

Vivam os nossos “omniscientes”. Talvez deles seja o reino... da terra!

 

EURO 2004! Ensaio sobre a lucidez, ou sobre a cegueira.....

Por Luís Barreira

Com a aproximação do Euro 2004 em Portugal, começamos a assistir, progressivamente, ao “desenterrar dos machados de guerra”:

São os bombeiros que começam a protestar contra o Serviço Nacional de Ambulâncias, ameaçando retirar-se da organização actual, se forem postos de parte na prevenção do Euro; são os hospitais a protestar contra a falta de meios, para tratar eventuais calamidades humanas; são os polícias a reclamar a falta de organização, a insalubridade das suas instalações e a completa falta de meios para administrar a segurança pública; são os trabalhadores das fábricas, que todos os dias fecham, a ameaçar protestar nessa altura, para que todo o mundo veja a sua desgraçada situação; são os serviços de estrangeiros e fronteiras, a marcar greves para esse período, reivindicando o pagamento das horas extraordinárias a que têm direito e colocando o País perante a situação de, ou entram todos os estrangeiros, sem vigilância, ou não entra ninguém; etc...etc.

No meio de tantas reclamações, até parece que só falta a selecção nacional de futebol ameaçar fazer greve, o que não seria caso único!...

Nesta telenovela habitual, antes dos grandes acontecimentos nacionais, fruto de conflitos mal resolvidos, ou que não foram objecto de resolução, por quem de direito, surge-nos sempre a mesma interrogação:

Será que em nome do “orgulho nacional” se deve fazer uma trégua das reclamações sociais? Não dar a entender “lá fora”, os males que nos afectam “cá dentro”?

Ou será que os cidadãos, em democracia, têm todo o direito a manifestar o seu descontentamento, aproveitando as ocasiões que produzam mais impacto às suas reclamações?

Neste jogo social, que não se move pelas mesmas regras de um jogo de futebol e que provoca resultados muito diferentes dos golos marcados, na baliza do adversário, espera-se uma outra atitude por parte das equipas em disputa.

Pode-se jogar à defesa e ao ataque,.... perder e ganhar! Tudo depende da reacção do adversário.

Pode-se jogar bem, ou mal, e empatar!

Mas neste campeonato especial, em que se disputam interesses económicos, sociais e políticos, de vária natureza, o árbitro tem um papel determinante no desenrolar e resultado do jogo. E o árbitro, neste caso, é o governo!

É ao governo que compete intervir e moderar os conflitos sociais, não podendo demitir-se da responsabilidade de criar um clima social favorável ao bom desenrolar do Euro-2004.

O governo não pode, nem ninguém lhe perdoaria, escudar-se por detrás dos actores sociais em conflito, deixando inflamar as situações até ao ponto de ruptura e impossibilidade de consensos.

Por muito liberal que seja o seu conceito de desenvolvimento económico, ou ausência de implicação directa, na responsabilidade pelo fecho das fábricas, o governo é eleito para criar bem estar aos cidadãos do seu país e não pode, sob qualquer pretexto, refugiar-se numa “política de avestruz”!

Sabemos que as sociedades ocidentais passam por um período (mais longo do que o habitual) de incertezas, quanto ao seu desenvolvimento e progresso económico. Temos consciência que um país, como Portugal, com graves desequilíbrios estruturais, tem mais dificuldades em sustentar um bom clima social. Mas será que, quando se mandaram construir 10 estádios, não sei quantos submarinos e novos helicópteros, se encolheu os “cordões à bolsa” para manter um déficit inferior ao de países muito mais ricos que o nosso, não se pensou em pôr uns tostões de parte para arranjar as esquadras da polícia, pagar as horas extras aos guardas da fronteira, retirar alguns dividendos do novo serviço hospitalar, para melhorar os cuidados de saúde e intervir, em nome do povo do país que governam, para impedir as más práticas patronais, ou ajudar patrões bem intencionados, a salvar a actividade das suas fábricas?

A democracia em que queremos viver não pode ser cega aos interesses dos cidadãos. Não fazer caso disso é não fazer uso da diferença que vai entre “ O ensaio sobre a lucidez” e “O ensaio sobre a cegueira”!

 

 A “revolta” das mulheres!

 Luís Barreira

Na segunda-feira, 8 de Março, comemorou-se mais um “Dia da Mulher”. Não sou um discípulo fanático das comemorações deste dia, nem tão pouco sou a favor da introdução do sistema de cotas que permite à mulher, só por ser do sexo feminino, ter acesso a cargos de responsabilidade pública. Achei sempre que, uma e outra coisa são, na prática, factores de discriminação em relação à mulher.

Sou, antes, a favor da abolição de todas as fronteiras discriminatórias, assentes no sexo, crenças religiosas ou outras.

No entanto, ao olhar para o mundo, hoje dia 10 de Março do ano de 2004, fico com a impressão de que, se eventualmente para mais nada serve o “Dia da Mulher”, que sirva para denunciar as atrocidades que elas sofrem, pelo facto de serem mulheres.

Ao ler um relatório da Amnistia Internacional, sobre as situações hoje vividas pelas mulheres, não posso deixar de pensar que, ainda hoje e em muitos lugares deste planeta, estamos na “idade da pedra”:

Na Ásia e no Médio Oriente, as mulheres continuam a ser assassinadas em nome da “honra”;

Em África e clandestinamente em alguns países europeus onde vivem, as jovens mulheres africanas continuam a ser mutiladas, nos órgãos genitais, em nome da “tradição”;

70% das mulheres assassinadas, foram mortas pelos seus companheiros masculinos e em França, para não irmos mais longe, 400 mulheres morrem, anualmente, às mãos dos homens com quem vivem.

O ritmo das violações é alucinante: no Ruanda, durante o genocídio de 1994, 20% da população feminina foi violada e no Kosovo, 30 a 50% das mulheres foi violada, durante o conflito. E, embora o Luxemburgo não disponha de dados estatísticos oficiais sobre muitos aspectos relacionados com este tema, diz o mesmo relatório que, anualmente, cerca de 300 mulheres procuram refúgio nos centros de acolhimento, fugindo à violência doméstica.

E isto é demais! É demais que, em pleno século das altas tecnologias da informação, tanto se tenha desprezado a formação das consciências masculinas. É demais que, nesta Europa em que vivemos, uma Europa presumidamente consciente dos valores o humanismo e da igualdade, continuemos a assistir a toda a espécie de violência, encapotada e declarada, sobre as mulheres.

Por isso, esses 50% da raça humana, que partilham connosco a vida, nas suas diferentes fases de sacrifício e felicidade, merecem mais respeito, do que aquele que lhes tem sido concedido. E isso não é só um trabalho de mulheres, é um trabalho dos dois sexos!

Reconhecendo os maus tratos que têm recebido do “bicho” homem e a força de que dispõem, espero que um dia não acordemos com as trompetas a anunciar: a “revolta” das mulheres.

 

 

E agora, Portugal?

Fernando Cruz Gomes

O que se está a passar na Europa chega a ser dramático. Pode bem dizer-se que, de momento, e face ao que aconteceu em Espanha, o terrorismo internacional averbou uma vitória. Triste. Dramático. A fazer pensar. E já há quem se interrogue se os EUA também “nos irão ajudar se houver atentados terroristas em Portugal”.

Com um certo pragmatismo, indaga-se mesmo se só estão a pensar no Euro2004. É que, para além disso, há o Rock in Rio e o 13 de Maio em Fátima. Com esta gente da Al-Qaeda ou de outro grupo terrorista similar... tudo pode acontecer. É que, pelos vistos, e a despeito de dizerem o contrário, não parece lógico pensar que estamos preparados para tudo isso...

Acredita-se que o primeiro-ministro de Portugal é capaz de ter brincado com o fogo quando acordou em mandar tropas para o Iraque.  Parece, de facto, que o terrorismo ganhou o primeiro round. Como dizia alguém, “abanou, assustou e marcou severamente o adversário”.

 

 

 

 

 A corrupção a ditar as suas leis

Aos pobres recomenda-se que... economizem

Fernando Cruz Gomes

Recomendar a um pobre que economize é o mesmo que aconselhar um homem que está a morrer de fome a comer menos. Nenhum entenderá. Quem o disse foi Oscar Wilde, um escritor britânico de origem irlandesa. E esse conselho está a surgir, ultimamente, em alguns países onde reina a corrupção.

A corrupção é uma gangrena social que mina tudo e todos. Especialmente em determinados países, o”suborno”, o “favoritismo” e o “compadrio”, a troco do dinheiro são mais do que evidentes. E causam mazelas que alastram por todo o tecido social e humano. Enfraquecem as defesas mais apuradas de uma Nação.

E, no entanto, a avaliar pelo que ainda agora a chamada “Transparência Internacional” divulgou em Londres, o suborno campeia. Mexe-se, qual cobra subreptícia, a andar, a andanr... até atingir os seus fins, que são sempre maléficos para os mais pobres.

E mesmo atendendo a que não atinge apenas os países chamados do Terceiro Mundo – Estados Unidos e Alemanha e Grécia e Itália estão mesmo bem (o que quer dizer mal...) colocados na lista de 133 países agora divulgados – a verdade é que esse flagelo carrega cores mais negras para os países ainda por desenvolver. Sim, porque se o filho ou irmão de um determinado “senhor” de qualquer dos países ditos desenvolvidos for apanhado na “rede”, o povo decerto nem sente.

Se a corrupção e as suas consequências se fizerem sentir num país do tal Terceiro Mundo, é certo e sabido que o povo sofre. Poderíamos dar exemplos de quanto baste para ilustrar a afirmação. Em Angola como na Nigeria, na Indonésia como na Venezuela, ao “fenómeno” da corrupção e do seu aliado suborno... sucedem-se logo faltas de toda a ordem. Há hospitais que se não constroem, circuito de distribuição de bens estrangulado, canalização de água que emperra. E isto para falar apenas em consequências de tofdos conhecidas.

A corrupção que vai enchendo os bolsos de alguns senhores que se tornam, de um ano para o outro, ricos e mais ricos parecendo, é também, por isso, uma forma de terrorismo. Subtil. Que nem parece real. É assim a modos que pingo de água que vai caindo, caindo, até alastrar para um grande mar em que se transformam as ondas de compadrio.

Será possível entender que Angola – e falamos apenas em Angola, mas poderíamos chamar a terreiro muitos outros países – esteja tão desfalcada de componentes sociais indispensáveis? De tantas carências que fazem morrer milhares de crianças todos os anos? De tanta doença... que em tempos já estava erradicada e que voltou agora? Será possível entender isso em países com solos e subsolos tão ricos?

Entende-se assim que ninguém queira largar o “tacho”. Como se entende que as guerrilhas e os golpes – mesmo palacianos – se sucedam a um ritmo demasiadamente vertiginoso. De São Tomé e Príncipe, por exemplo, a ideia de que só houve golpes e contra-golpes, borborinhos e quezílias, quando se descobriu que, afinal, o pequeno País era (ou poderia ser) rico em petróleo.

Alguém nos conta que Oliveira Salazar, quando avisado de que tinha sido descoberto petróleo em Angola, apertou as mãos na cabeça e disse: “Que tragédia! Até petróleo...” Ele, já por essa altura, sabia do que falava. Sabia do que vinha a seguir.

 

 

 

 Um mar de indefinições

As Comunidades Portuguesas, que se multiplicam pela chamada diáspora, viveram sempre, e hoje mais do que nunca, num mar de indefinições. Mais do que indefinições, a “roupagem” de que se revestem – e as revestiram – chega a dar a ideia de que se trata de um conjunto de contradições. Com laivos de injustiça. Esquecem-se situações em que a Emigração deu a “mão forte”, em termos de dinheiros e investimentos, à Mãe Pátria (às vezes madrasta...). E esquecem-se, afinal, que Portugal não tem apenas 10 milhões de cidadãos “filhos”, mas sim, pelo menos, 15 milhões. E quando falamos em esquecimento... temos de meter no mesmo saco Governos (de qualquer quadrante político) e entidades empresariais ou mesmo sindicais.

Os chamados emigrantes são, de facto, esquecidos. E quando surgem organismos mais ou menos “de cúpula” – ou a funcionarem como se de cúpula fossem – aí vemos nós vir ao de cima toda uma série de inimizades e desamores. Que filham raízes no conceito velho de muitas décadas de que Portugueses... são os que lá ficaram.

Talvez por isso, haja já uma ou outra voz a encrespar-se contra a Associação Internacional de Jornalistas. Que nasceu como à revelia do “pai” Estado Português e até mesmo em luta sadia com ele. Que não representa todos os Jornalistas. Que...

A Associação é o que é. Tem cerca de uma centena de aderentes que em breve vão ser chamados a aprovar os primeiros Estatutos. E que aceita todos os que, sendo Jornalistas (por profissão ou por paixão) se quiserem integrar.

 

 

 

 

 

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